Operação Merx investiga esquema que teria exigido cerca de R$ 2,35 milhões para devolver celulares e eletrônicos contrabandeados; três delegacias da Grande São Paulo foram alvo de buscas
Três policiais civis foram presos nesta sexta-feira (28) durante uma operação contra um grupo suspeito de cobrar propina para liberar cargas ilegais de celulares e outros equipamentos eletrônicos interceptadas no estado de São Paulo.
Batizada de Operação Merx, a ação foi deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Corregedoria da Polícia Civil. O Departamento de Operações Estratégicas da Polícia Civil também participa das diligências.
A Justiça expediu sete mandados de prisão preventiva. Até a última atualização, cinco haviam sido cumpridos. Foram detidos três policiais civis, um advogado e um empresário do Paraná.
A operação também cumpre 18 mandados de busca e apreensão. Entre os endereços estão três delegacias da Grande São Paulo que, segundo a investigação, teriam sido utilizadas para armazenar mercadorias e simular apreensões parciais.
Policiais teriam exigido 70% do valor das cargas
Segundo a investigação, os policiais interceptavam carregamentos de eletrônicos de origem irregular, mas não registravam oficialmente a apreensão de toda a mercadoria.
Os agentes teriam exigido dos responsáveis pelas cargas pagamentos equivalentes a aproximadamente 70% do valor dos produtos. Em troca, os carregamentos eram liberados total ou parcialmente.
Em pelo menos quatro episódios documentados desde 2024, o grupo teria cobrado cerca de R$ 2,35 milhões em propina, conforme os investigadores.
A apuração busca esclarecer como os pagamentos eram negociados, quem recebia os valores e de que maneira as mercadorias eram retiradas das unidades policiais.
O esquema teria envolvido policiais, intermediários e empresários ligados ao transporte e à comercialização dos produtos contrabandeados.
Cinco pessoas foram presas durante a operação
Entre os presos estão os policiais civis Bruno Moreno dos Santos, José Adriano Pereira da Silva Nishi e Marcos Vinicius.
Também foram detidos o advogado Sidiclei Almeida, apontado como intermediário das negociações, e o empresário paranaense Jonathan Vieira, que teria atuado na intermediação do esquema no Paraná.
De acordo com a investigação, Bruno Moreno dos Santos teria participado da interceptação de uma carga de celulares em 17 de junho de 2024. Apenas parte dos produtos teria sido formalmente apreendida.
José Adriano Pereira da Silva Nishi é investigado por supostamente participar das negociações para a liberação irregular de uma das cargas. A participação atribuída a Marcos Vinicius ainda não foi detalhada pelas autoridades.
As acusações permanecem sob investigação. Até a divulgação das informações, as defesas dos investigados ainda não haviam sido localizadas para comentar o caso, e o espaço permanece aberto para manifestação.
Dois alvos permanecem procurados
Dos sete alvos dos mandados de prisão preventiva, dois ainda não haviam sido presos até a última atualização.
Segundo os investigadores, Thiago Magnabosco está no Paraguai e é considerado foragido. Outro policial civil também continua sendo procurado.
As autoridades devem compartilhar informações com outros órgãos para tentar localizar os investigados que não foram encontrados durante a primeira etapa da operação.
A prisão preventiva não representa condenação. A medida é adotada por decisão judicial durante a investigação, e os suspeitos terão direito à defesa ao longo do processo.
Advogado seria intermediário do esquema de propina
O advogado Sidiclei Almeida é apontado como um dos principais intermediários entre os policiais e os empresários envolvidos nas negociações.
Segundo a investigação, ele teria entrado em contato com os agentes, negociado os valores exigidos, indicado contas bancárias para os pagamentos e participado dos procedimentos necessários para devolver as mercadorias.
O advogado também teria orientado os envolvidos sobre quais valores deveriam ser apresentados oficialmente às autoridades.
Mensagens analisadas pelos investigadores indicam que o suspeito se referia ao dinheiro em espécie utilizado nos pagamentos como “caixinha da alegria”.
As conversas são consideradas uma das evidências do suposto esquema. Os investigadores deverão analisar os celulares, computadores e documentos apreendidos para identificar outros pagamentos e possíveis participantes.
Delegacias teriam sido utilizadas para armazenar produtos
Entre os 18 endereços alvos da operação estão a Delegacia de Santana de Parnaíba, a Delegacia de Embu das Artes e o 2º Distrito Policial de Cotia.
Segundo o Ministério Público, integrantes do grupo utilizavam as dependências da própria Polícia Civil para guardar as cargas interceptadas e organizar a posterior devolução dos produtos.
Os agentes também teriam simulado apreensões parciais. Dessa maneira, apenas uma parte dos eletrônicos era registrada oficialmente, enquanto o restante poderia ser devolvido aos responsáveis mediante o pagamento da propina.
A prática daria aparência de legalidade à atuação policial, já que uma parcela dos produtos aparecia nos registros como mercadoria apreendida.
A investigação apura se viaturas, salas, equipamentos e outros recursos públicos foram utilizados para garantir o funcionamento do esquema.
Sistema policial pode ter sido usado para monitorar caminhão
A operação também investiga a suspeita de utilização de sistemas da Polícia Civil para monitorar cargas e obter vantagens ilegais.
O policial civil Vagner de Lima, investigador de primeira classe lotado no 2º Distrito Policial de Cotia, não teve a prisão decretada, mas foi afastado da função pública.
Ele também teve recolhidas suas credenciais de acesso aos sistemas policiais e ficou proibido de manter contato com investigados e testemunhas.
Segundo a investigação, foram identificados 13 acessos realizados com o login funcional do policial ao sistema Muralha Paulista/Cortex. As consultas estavam relacionadas a um veículo que, posteriormente, teria sido envolvido em um dos episódios investigados.
A suspeita é que o sistema tenha sido utilizado para acompanhar a localização ou o deslocamento de um caminhão ligado ao esquema.
Os investigadores procuram determinar se os acessos foram realizados pelo próprio policial, qual foi a justificativa apresentada e se as informações foram repassadas a outros integrantes do grupo.
Justiça determina bloqueio de até R$ 4 milhões
Além das prisões e das buscas, a Justiça autorizou a quebra dos sigilos dos investigados e determinou o bloqueio de até R$ 4 milhões em bens e valores.
A medida busca evitar a transferência ou ocultação de patrimônio que possa estar relacionado às atividades investigadas.
Caso as suspeitas sejam confirmadas, os recursos bloqueados poderão ser utilizados para ressarcir prejuízos e garantir o pagamento de eventuais multas e condenações.
A investigação deverá analisar movimentações bancárias, transferências, pagamentos em espécie e possíveis tentativas de ocultar a origem do dinheiro.
Mandados são cumpridos em três estados
As diligências da Operação Merx ocorrem em cidades de São Paulo, Paraná e Goiás.
No estado de São Paulo, os agentes cumprem mandados em Barueri, Taboão da Serra, Diadema, Cotia, Santana de Parnaíba, Embu das Artes, São Sebastião e na capital paulista.
No Paraná, as buscas ocorrem em Londrina e Foz do Iguaçu. Em Goiás, há diligências em São Luís de Montes Belos.
A distribuição dos mandados por diferentes estados está relacionada à participação de empresários e intermediários que teriam atuado na movimentação das cargas e nos pagamentos.
Investigação apura corrupção e organização criminosa
A Operação Merx é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, do Ministério Público paulista.
Os investigadores apuram possíveis crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A corrupção passiva estaria relacionada à suspeita de que agentes públicos exigiram ou receberam vantagens ilegais. A corrupção ativa envolve a possível oferta ou pagamento de propina por empresários e responsáveis pelas mercadorias.
A investigação sobre lavagem de dinheiro busca identificar se houve ocultação ou dissimulação da origem dos valores. Já a suspeita de organização criminosa está ligada à suposta atuação estruturada e coordenada entre diferentes integrantes.
As responsabilidades individuais ainda serão analisadas durante a investigação e em eventual processo judicial.
Tarcísio diz que desvios não serão tolerados
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que os policiais envolvidos em desvios de conduta serão afastados e punidos.
Em nota, o governador destacou a participação da Corregedoria da Polícia Civil na investigação.
“A Corregedoria da Polícia Civil tem atuado para coibir desvios de conduta. Toda vez que for constatado um desvio, a ação do Estado será imediata no sentido de afastar e punir com rigor, nas esferas administrativa e criminal, os maus policiais. Não vamos tolerar desvios”, declarou Tarcísio.
A operação desta sexta-feira ocorre um dia depois de outros três policiais serem presos em Osasco. Nesse segundo caso, um policial militar da reserva e dois policiais civis são suspeitos de utilizar uma delegacia para extorquir dinheiro de um motorista de aplicativo.
Com as duas ações, ao menos seis policiais foram presos em dois dias por suspeita de utilizar estruturas públicas para cometer crimes.
Materiais apreendidos serão analisados
Os documentos, celulares, computadores e registros financeiros recolhidos durante as buscas deverão ser encaminhados para análise.
A expectativa é que o material ajude a identificar outros episódios, novos integrantes do grupo e o destino dos valores supostamente pagos como propina.
Os investigadores também deverão comparar as apreensões registradas oficialmente nas delegacias com a quantidade real de mercadorias transportadas nos caminhões interceptados.
A diferença entre os produtos registrados e os carregamentos originais poderá ajudar a comprovar a suspeita de que parte das cargas era liberada irregularmente.
A Operação Merx continua em andamento, enquanto as autoridades procuram os dois alvos dos mandados de prisão que ainda não foram localizados.
