Câmeras corporais registraram os disparos contra Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, durante uma abordagem em julho de 2025. Família recorreu da decisão e outros dois policiais ainda serão julgados.
O Tribunal do Júri absolveu os policiais militares Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, acusados pela morte de Igor Oliveira de Moraes Santos durante uma operação em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo.
Igor tinha 24 anos e morreu em 10 de julho de 2025. Imagens de câmeras corporais mostram o jovem inicialmente com as mãos sobre a cabeça, deitado no chão e, posteriormente, tentando se levantar após receber ordens dos agentes. Ele foi atingido por dois disparos.
O julgamento começou na terça-feira (28) e terminou na quinta-feira (30), no Fórum Criminal da Barra Funda. O Conselho de Sentença era formado por sete jurados, sendo cinco homens e duas mulheres.
Segundo a sentença, os jurados reconheceram a materialidade do crime e a autoria atribuída aos dois policiais. Em seguida, porém, responderam positivamente ao chamado quesito absolutório genérico, resultando na absolvição dos réus.
Com a decisão, a Justiça determinou a expedição de alvarás de soltura para os dois agentes, que estavam no Presídio Militar Romão Gomes.
A família de Igor apresentou recurso por considerar que a absolvição é contrária às provas do processo. Os advogados pedem que o Tribunal de Justiça anule o resultado e determine a realização de um novo júri.
Julgamento durou três dias
O julgamento de Renato Torquatto e Robson Noguchi começou na terça-feira, no Plenário 13 do Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste da capital.
Durante três dias, jurados acompanharam depoimentos, argumentos da acusação e da defesa, além da apresentação das imagens registradas pelas câmeras corporais.
Ao final, o Conselho de Sentença reconheceu a existência do crime e a autoria atribuída aos dois acusados.
Apesar disso, os jurados decidiram absolver os policiais ao responderem ao quesito geral que permite a absolvição mesmo após o reconhecimento da materialidade e da autoria.
As decisões do Tribunal do Júri não apresentam uma fundamentação detalhada dos jurados. Por esse motivo, a sentença não explica individualmente quais argumentos levaram à absolvição.
O resultado encerra essa etapa do processo, mas ainda poderá ser analisado pelo Tribunal de Justiça por causa do recurso apresentado pelos representantes da família.
Família pede realização de novo júri
Os advogados Gabriela Amoras, Jonatha Carvalho Matos e Wilson Zaska, representantes da família de Igor, informaram que recorreram da sentença.
A defesa da família considera que a decisão foi “manifestamente contrária às provas produzidas nos autos”.
O recurso pede que o Tribunal de Justiça de São Paulo anule o julgamento e determine que os dois policiais sejam submetidos a um novo Tribunal do Júri.
Os advogados afirmaram confiar que o tribunal restabelecerá a correta aplicação da Justiça depois de analisar as provas apresentadas durante o processo.
O recurso não significa que os agentes serão automaticamente condenados. Caso os desembargadores aceitem a argumentação, poderá ser determinada a realização de outro julgamento por um novo grupo de jurados.
Alvarás de soltura foram expedidos
Depois da absolvição, a Justiça determinou a expedição dos alvarás de soltura de Renato Torquatto e Robson Noguchi.
Os documentos devem ser encaminhados ao Presídio Militar Romão Gomes, onde os agentes estavam detidos.
A soltura decorre diretamente da decisão tomada pelo Conselho de Sentença.
A situação poderá ser revista caso o recurso apresentado pela família resulte na anulação do júri ou em uma nova decisão judicial que altere as medidas aplicadas aos policiais.
Até que isso aconteça, prevalece o resultado absolutório estabelecido pelos jurados.
Igor foi morto durante operação da Rocam
A ocorrência aconteceu durante uma operação das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas, a Rocam, ligada ao 16º Batalhão da Polícia Militar.
Os agentes afirmaram que realizavam patrulhamento no cruzamento das ruas Rudolf Lotze e Pasquale Gualupi para combater o tráfico de drogas na região.
Segundo a versão inicialmente apresentada pelos policiais, pelo menos três homens armados teriam fugido ao perceber a aproximação das motocicletas e entrado em uma casa localizada em uma viela.
Os PMs seguiram os suspeitos e entraram no imóvel. As câmeras corporais registraram a abordagem realizada dentro da residência.
As imagens passaram a ser uma das principais provas da investigação conduzida pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa.
Câmeras registraram rendição
As gravações mostram que os policiais entraram no imóvel e arrombaram a porta do quarto onde os homens estavam.
Quando os agentes chegaram ao cômodo, os ocupantes se renderam e levantaram as mãos.
Em um trecho de aproximadamente 20 segundos, Igor aparece com as mãos sobre a cabeça. Depois, ele se deita no chão seguindo as determinações policiais.
Na sequência, o jovem começa a se levantar com uma das mãos erguidas, novamente depois de receber uma ordem.
Nesse momento, Renato Torquatto realiza o primeiro disparo. Logo depois, Robson Noguchi também atira.
Igor foi atingido pelos tiros e morreu durante a ocorrência.
Jovem disse que não estava armado
As imagens registraram uma conversa entre Renato Torquatto e Igor pouco antes dos disparos.
O policial perguntou se o jovem possuía antecedentes criminais e se estava armado. Igor respondeu negativamente às duas perguntas.
Em seguida, Renato ordenou que ele se levantasse.
Quando Igor começou a cumprir a determinação, o agente atirou. Robson Noguchi realizou outro disparo imediatamente depois.
As gravações não mostram Igor segurando ou tentando alcançar qualquer arma naquele momento.
Esse trecho foi utilizado pela acusação para sustentar que o jovem estava rendido e não oferecia ameaça quando foi atingido.
Gravações não mostram apreensão de arma
As câmeras corporais utilizadas pelos quatro policiais registraram grande parte da operação.
Até o final das gravações, não aparece nenhuma arma sendo apreendida com Igor ou com os outros homens abordados no quarto.
Depois dos disparos, os policiais passam a afirmar que o jovem estaria armado. Um dos agentes repete essa versão enquanto a ocorrência continua.
Também é possível ouvir ordens para que os suspeitos soltem uma arma, mesmo sem que o objeto apareça nas imagens.
Em determinado momento, um novo disparo é realizado contra uma parede da residência.
Posteriormente, os policiais colocam luvas e permanecem dentro do imóvel. As quatro gravações terminam sem registrar a localização ou a apreensão de qualquer armamento com os abordados.
Tiros também foram disparados contra paredes
Antes de entrar no quarto, Renato Torquatto perguntou se havia alguém armado no local.
O policial realizou dois disparos contra as paredes da casa. Depois dos tiros, os homens que estavam no cômodo se deitaram no chão.
Os agentes continuaram perguntando sobre a existência de armas.
Após Igor ser atingido, outro disparo contra a parede foi registrado. Os policiais continuaram ordenando que os homens soltassem um armamento.
A sequência dos tiros e as falas dos agentes foram analisadas pelos investigadores para reconstruir a dinâmica da ocorrência.
O Ministério Público utilizou as gravações para sustentar a acusação apresentada ao Tribunal do Júri.
DHPP apontou execução na investigação
O Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa concluiu durante a investigação que Igor foi vítima de uma execução.
Esse foi o entendimento policial construído a partir da análise das câmeras corporais e dos demais elementos reunidos no inquérito.
Segundo a investigação, os agentes não sabiam que os equipamentos estavam funcionando e registrando a abordagem.
As imagens mostram os homens com as mãos levantadas e sem armas visíveis quando os policiais entram no quarto.
Igor aparece colocando as mãos atrás da cabeça em um gesto de rendição.
A conclusão do DHPP foi encaminhada ao Ministério Público, que posteriormente denunciou os quatro policiais envolvidos na ocorrência.
O Tribunal do Júri, porém, absolveu os dois agentes acusados de realizar os disparos.
Ministério Público denunciou quatro policiais
O Ministério Público apresentou a denúncia contra quatro policiais em 22 de julho de 2025.
A acusação foi aceita pela juíza Luciana Menezes Scorza, da 4ª Vara do Júri.
No dia 29 de julho daquele ano, os quatro agentes passaram formalmente à condição de réus.
Renato Torquatto e Robson Noguchi foram apontados como os responsáveis pelos disparos que mataram Igor.
Os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também foram denunciados, mas na condição de colaboradores dos executores.
O processo dos dois foi separado, e eles ainda não foram julgados.
Outros dois PMs ainda enfrentarão júri
Hugo Leal e Victor Henrique serão julgados separadamente pela participação atribuída a eles na ocorrência.
A Justiça ainda não definiu uma data para o novo julgamento.
O desmembramento permite que o processo contra os dois continue independentemente do resultado obtido por Renato e Robson.
A absolvição dos autores dos disparos não encerra automaticamente a ação contra os policiais apontados como colaboradores.
Os jurados do futuro julgamento deverão analisar as acusações e as provas relacionadas especificamente à conduta de Hugo e Victor durante a operação.
Reconhecimento da autoria não impediu absolvição
A sentença registra que o Conselho de Sentença reconheceu tanto a materialidade quanto a autoria atribuída aos réus.
Isso significa que os jurados reconheceram a ocorrência da morte e a participação dos policiais nos disparos.
Mesmo assim, o grupo respondeu afirmativamente à pergunta geral sobre a absolvição.
O quesito absolutório permite que os jurados absolvam um acusado mesmo depois de reconhecerem a materialidade e a autoria.
Como as votações do Tribunal do Júri são sigilosas, não é possível saber quais fundamentos individuais determinaram o resultado.
Essa combinação entre reconhecimento da autoria e absolvição é justamente um dos pontos questionados no recurso apresentado pela família de Igor.
Tribunal analisará recurso da família
O Tribunal de Justiça deverá avaliar se a decisão do júri possui sustentação nas provas apresentadas durante o julgamento.
Os desembargadores não substituirão diretamente os jurados para condenar os policiais. A análise deverá se concentrar na validade da decisão e na possibilidade de o resultado ser manifestamente contrário ao conjunto probatório.
Caso o recurso seja rejeitado, a absolvição será mantida nessa etapa do processo.
Se o pedido for aceito, o tribunal poderá determinar que Renato e Robson sejam submetidos a um novo julgamento.
Nesse cenário, outro Conselho de Sentença será formado para reavaliar o caso.
Caso permanece sem desfecho definitivo
A absolvição representa uma decisão importante no processo, mas o caso ainda não chegou ao encerramento definitivo.
O recurso da família precisa ser julgado, e os outros dois policiais denunciados ainda serão submetidos ao Tribunal do Júri.
As imagens das câmeras corporais continuarão no centro das discussões judiciais.
Para a acusação e para os representantes da família, as gravações mostram Igor desarmado, rendido e obedecendo às ordens antes de ser atingido.
O primeiro grupo de jurados, entretanto, optou pela absolvição dos dois responsáveis pelos disparos.
A decisão agora será examinada pelo Tribunal de Justiça, que definirá se o resultado será mantido ou se um novo júri deverá ser realizado.
