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Operação mira rede financeira ligada a organização criminosa e bloqueia até R$ 10 milhões

Investigação do Ministério Público de São Paulo aponta que grupo utilizava empresas de fachada para movimentar dinheiro ilícito e também participava de julgamentos realizados por “tribunais do crime”


O Ministério Público de São Paulo realizou, nesta terça-feira (21), uma operação contra uma rede financeira clandestina suspeita de prestar serviços para uma organização criminosa. De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, os investigados movimentavam valores de origem ilícita, intermediavam a compra de bens e davam aparência de legalidade ao dinheiro obtido por criminosos.

Durante o cumprimento das ordens judiciais, 11 pessoas foram presas. Outros dois investigados já estavam no sistema prisional e cinco permaneciam foragidos.

A Justiça expediu 18 mandados de prisão preventiva e 18 de busca e apreensão, além de autorizar o bloqueio de até R$ 10 milhões em bens e contas associados aos operadores e às empresas investigadas.


Grupo funcionava como banco clandestino

Segundo o Ministério Público, a rede atuava como uma espécie de prestadora clandestina de serviços financeiros.

Os operadores recebiam dinheiro em espécie, supostamente obtido por meio de atividades criminosas, e realizavam transferências utilizando contas bancárias de empresas de fachada.

O objetivo seria esconder a verdadeira origem dos recursos e permitir que os beneficiários utilizassem o dinheiro no sistema financeiro formal.

Para os investigadores, as transações não possuíam justificativa comercial legítima. Os valores eram movimentados entre diferentes contas e pessoas jurídicas para dificultar a identificação dos responsáveis.


Operadores cobravam comissão pelas transações

Os suspeitos recebiam comissões para realizar as operações financeiras e disponibilizar os valores aos clientes.

O serviço teria características semelhantes às atividades de doleiros, responsáveis por intermediar, de maneira clandestina, transferências e outras transações em troca de taxas.

Nesse modelo, o criminoso entregava o dinheiro vivo aos operadores. Depois, os valores eram compensados por meio de transferências, pagamentos ou compras realizadas pelas empresas utilizadas no esquema.

A investigação apura possíveis crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa e ocultação de patrimônio.


Rede atendia integrantes do PCC

De acordo com o Gaeco, a estrutura financeira prestava serviços para diferentes grupos, desde criminosos sem ligação direta com facções até integrantes da cúpula do Primeiro Comando da Capital.

Os operadores seriam responsáveis por oferecer a estrutura necessária para que os clientes movimentassem recursos sem utilizar as próprias contas bancárias.

O esquema também permitiria a aquisição de imóveis, veículos e outros bens em nome de terceiros, evitando que o patrimônio fosse diretamente associado aos investigados.

A utilização de empresas de fachada ainda criava uma justificativa aparentemente comercial para transferências que, segundo o MP, tinham origem criminosa.


Onze pessoas foram presas durante operação

Até a última atualização da operação, 11 dos investigados tinham sido presos. Outros dois alvos já estavam detidos por envolvimento em investigações anteriores.

Cinco pessoas continuavam foragidas. Entre elas está Leonardo Meirelles, que já era considerado procurado em outras operações.

As equipes também cumprem mandados de busca em endereços ligados aos suspeitos e às empresas investigadas.

Computadores, celulares, documentos bancários e planilhas financeiras poderão ser utilizados para identificar novas transações, beneficiários e integrantes da rede.


Justiça determinou bloqueio de até R$ 10 milhões

Além das prisões e das buscas, a Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 10 milhões em contas, bens e ativos financeiros.

A medida busca impedir que o patrimônio seja transferido ou ocultado durante o andamento da investigação.

Os bloqueios atingem pessoas físicas e empresas apontadas como integrantes da estrutura financeira clandestina.

A indisponibilidade dos valores não representa uma condenação definitiva. A eventual perda dos bens dependerá do avanço do processo e de uma decisão judicial.


Áudios ajudaram investigação a avançar

Segundo os promotores, a apuração ganhou força depois que um participante de reuniões dos chamados “tribunais do crime” realizou gravações dos encontros.

Alguns dos áudios possuem aproximadamente uma hora de duração e registram discussões entre integrantes da facção.

Nas gravações, os participantes apresentavam seus históricos no sistema prisional, as conexões mantidas dentro do grupo e as regras internas de comportamento.

O conteúdo permitiu que os investigadores identificassem integrantes, funções e relações de confiança dentro da estrutura criminosa.

Os registros também poderão ajudar a esclarecer como as decisões eram tomadas e quem participava dos julgamentos clandestinos.


O que são os “tribunais do crime”

Os chamados “tribunais do crime” são julgamentos ilegais realizados por integrantes de facções para resolver conflitos, punir supostas violações das regras internas ou decidir sobre disputas envolvendo terceiros.

Esses procedimentos não possuem qualquer validade jurídica e podem resultar em ameaças, agressões, expulsões e homicídios.

Segundo a investigação, integrantes da rede financeira também mantinham relações com pessoas envolvidas nesses julgamentos.

A participação nos encontros ajudou o Ministério Público a compreender como o braço financeiro se conectava a outras áreas da estrutura criminosa.


Planilhas mostram movimentações financeiras

Planilhas apreendidas durante a investigação registravam valores, transferências e possíveis pagamentos realizados pelos operadores.

Os documentos deverão ser confrontados com extratos bancários, declarações fiscais e registros das empresas utilizadas nas transações.

Os investigadores buscam determinar a origem do dinheiro, o destino dos recursos e o valor cobrado pela intermediação.

A análise também poderá revelar outras pessoas que utilizaram os serviços da rede, mas que ainda não foram formalmente identificadas na operação.


Investigação aponta contatos com oficiais da PM

Registros de áudio e documentos financeiros indicam relações entre investigados por crimes financeiros e oficiais de alta patente da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Segundo o Ministério Público, essa proximidade teria sido utilizada para garantir trânsito, proteção e apoios estratégicos.

A existência de contatos, isoladamente, não comprova a participação dos policiais em crimes. A investigação deverá esclarecer a natureza das relações e verificar se houve favorecimento ou fornecimento de informações.

As identidades e as situações funcionais dos oficiais mencionados não foram detalhadas nas informações divulgadas sobre a operação.


Transações de “Buiu” estão sob investigação

Os promotores identificaram movimentações financeiras consideradas volumosas realizadas pelo investigado Alexandre Salles Brito, conhecido como Buiu.

As transações passaram a ser analisadas para determinar a origem e o destino dos recursos.

O Ministério Público também tenta identificar quais empresas foram utilizadas e se os valores estavam relacionados às atividades da facção.

Buiu é tratado como investigado e terá direito de apresentar sua defesa durante o processo.


Léo do Moja seria um dos principais clientes

O Ministério Público aponta Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moja ou Léo do Moinho, como um dos principais clientes da rede financeira.

Ele é acusado de chefiar o tráfico de drogas na Favela do Moinho, na região central de São Paulo, e foi preso em 2024 durante a Operação Salus et Dignitas.

Segundo os promotores, Léo do Moja recorria aos operadores para adquirir bens sem utilizar o próprio nome.

O dinheiro era entregue em espécie, enquanto as compras eram formalizadas pelos intermediários ou pelas empresas ligadas ao esquema.

Dessa forma, os bens não apareciam diretamente vinculados ao suposto chefe da facção, dificultando o rastreamento do patrimônio.


Esquema comprava bens em nome de terceiros

A investigação aponta que a rede não se limitava a transferir dinheiro entre contas.

Os operadores também realizavam compras em nome próprio ou por meio de terceiros. Em troca, recebiam dos clientes o valor correspondente em espécie e uma comissão pelo serviço.

Esse mecanismo permitiria que pessoas ligadas ao crime organizado adquirissem patrimônio sem aparecer formalmente nos contratos.

Os promotores investigam se imóveis, veículos e outros bens foram comprados dessa maneira.

O rastreamento patrimonial será utilizado para identificar possíveis beneficiários ocultos e calcular o volume total movimentado pelo grupo.


Facção teria interferido em disputa por imóveis de luxo

O Ministério Público também identificou a possível participação da estrutura criminosa na resolução de conflitos privados.

Um dos casos envolve uma disputa por imóveis de luxo na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista.

Segundo a investigação, as partes teriam recorrido à facção para interferir na discussão, substituindo os mecanismos legais por uma decisão imposta pelo grupo criminoso.

O grupo ligado a Léo do Moja teria atuado em favor do empresário Cléber Azevedo dos Santos.

Para os promotores, o episódio consolidou uma relação de prestação de serviços entre o empresário e o braço financeiro investigado.

As circunstâncias do conflito e a participação de cada envolvido ainda serão analisadas no decorrer da investigação.


Material apreendido pode revelar novos clientes

A operação busca reunir provas sobre o funcionamento da rede e identificar outros clientes que utilizaram os serviços clandestinos.

A análise de celulares, computadores, documentos e contas bancárias poderá revelar novas empresas de fachada e transações ainda desconhecidas.

O Ministério Público também deverá apurar se os operadores mantinham estruturas semelhantes em outros municípios ou estados.

Caso sejam encontrados indícios contra novas pessoas, a investigação poderá resultar em outras operações, prisões e bloqueios de patrimônio.


Operação tenta atingir estrutura financeira do crime

A estratégia das autoridades é interromper o acesso dos criminosos ao sistema financeiro e impedir que recursos ilícitos sejam utilizados para adquirir bens, financiar atividades ou ampliar a influência da facção.

Sem intermediários e empresas de fachada, integrantes de grupos criminosos enfrentam maior dificuldade para movimentar grandes quantias sem chamar a atenção dos órgãos de fiscalização.

Por isso, o bloqueio de bens e o rastreamento das transações são considerados partes centrais da investigação.

Os 18 presos preventivamente ou procurados são considerados investigados. A responsabilidade criminal de cada um dependerá da conclusão das apurações e das decisões da Justiça.