Search
Close this search box.

Luiz Carlos Barreto, referência do Cinema Novo e produtor de mais de 80 filmes, morre aos 98 anos

Conhecido como Barretão, cineasta participou de clássicos como “Vidas secas”, “Terra em transe” e “Dona Flor e seus dois maridos” ao longo de seis décadas dedicadas ao audiovisual brasileiro


O produtor, diretor, fotógrafo e roteirista Luiz Carlos Barreto morreu na madrugada desta quarta-feira (22), aos 98 anos. A informação foi confirmada pela família.

Conhecido como Barretão, ele estava internado desde terça-feira (21) e enfrentava problemas de saúde desde março de 2024, quando sofreu uma queda durante uma homenagem realizada no Ceará.

Considerado um dos nomes mais importantes da história do cinema brasileiro, Barreto teve participação decisiva no movimento do Cinema Novo e trabalhou em mais de 80 produções durante seis décadas de carreira.

Sua trajetória inclui clássicos como “Vidas secas”, “Terra em transe”, “Dona Flor e seus dois maridos”, “O quatrilho”, “O que é isso, companheiro?” e “Bye bye Brasil”.


Luiz Carlos Barreto marcou a história do cinema brasileiro

Barretão construiu uma carreira que atravessou diferentes períodos do audiovisual nacional.

Ele iniciou sua vida profissional no jornalismo e na fotografia, participou da transformação estética promovida pelo Cinema Novo e se consolidou como um dos produtores mais influentes do país.

Por meio da L.C. Barreto Produções Cinematográficas, fundada em maio de 1963, ajudou a viabilizar dezenas de filmes de diretores que se tornaram referências do cinema brasileiro.

Sua atuação não ficou restrita à produção. Barreto trabalhou como fotógrafo, diretor de fotografia, roteirista e diretor, participando diretamente da criação de algumas das imagens mais reconhecidas do audiovisual nacional.


Barretão trabalhou em “Vidas secas”

Um dos trabalhos mais importantes de sua carreira foi a direção de fotografia de “Vidas secas”, lançado em 1963.

Dirigido por Nelson Pereira dos Santos, o filme adaptou para o cinema o romance homônimo de Graciliano Ramos.

A produção acompanha uma família de retirantes tentando sobreviver à seca e à pobreza no sertão nordestino.

A fotografia em preto e branco tornou-se um dos elementos mais marcantes da obra. O trabalho ajudou a construir a atmosfera de aridez, sofrimento e desigualdade apresentada na narrativa.

“Vidas secas” passou a ser reconhecido como um dos grandes clássicos do cinema brasileiro e uma das obras fundamentais do Cinema Novo.


Fotografia de “Terra em transe” também teve participação de Barreto

Barreto também trabalhou como diretor de fotografia em “Terra em transe”, lançado em 1967 e dirigido por Glauber Rocha.

O filme apresenta uma narrativa política ambientada no país fictício de Eldorado e aborda disputas pelo poder, autoritarismo, populismo e conflitos ideológicos.

A produção tornou-se uma das obras mais representativas de Glauber Rocha e do Cinema Novo.

A participação nos dois filmes colocou Luiz Carlos Barreto no centro de um movimento que buscava criar uma linguagem própria para o audiovisual brasileiro e retratar as contradições sociais e políticas do país.


Produtora foi fundada em 1963

Depois de trabalhar no jornalismo, na fotografia e em suas primeiras experiências cinematográficas, Barreto decidiu criar a própria produtora.

A L.C. Barreto Produções Cinematográficas nasceu em maio de 1963, por sugestão de José Luiz de Magalhães Lins, então diretor do Banco Nacional de Minas Gerais.

O primeiro projeto foi “Garrincha — Alegria do povo”, documentário dirigido por Joaquim Pedro de Andrade.

A obra retrata a trajetória do jogador Mané Garrincha e a relação do futebol com a cultura popular brasileira.

Ao longo das décadas seguintes, a produtora se transformou em uma das mais importantes empresas do audiovisual nacional.


L.C. Barreto ajudou a realizar grandes clássicos

A produtora participou de obras que marcaram diferentes gerações do cinema brasileiro.

Entre elas estão “A hora e vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos; “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, de Glauber Rocha; e “Brasil ano 2000”, de Walter Lima Jr.

Barretão também trabalhou com cineastas como Cacá Diegues, Bruno Barreto, Fábio Barreto, Joaquim Pedro de Andrade e Nelson Pereira dos Santos.

A atuação da empresa ajudou a preservar a continuidade da produção cinematográfica brasileira mesmo em períodos de crise, censura, falta de financiamento e instabilidade institucional.


“Dona Flor” foi o maior sucesso comercial

O maior sucesso de público ligado à trajetória de Luiz Carlos Barreto foi “Dona Flor e seus dois maridos”, lançado em 1976.

Dirigido por seu filho mais velho, Bruno Barreto, o filme adaptou o romance de Jorge Amado e levou quase 11 milhões de espectadores aos cinemas brasileiros.

A produção, protagonizada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça, tornou-se um fenômeno cultural e permaneceu durante décadas entre as maiores bilheterias da história do país.

O êxito consolidou a família Barreto como uma das principais forças do cinema nacional.


Produtora chegou duas vezes ao Oscar

A L.C. Barreto também esteve envolvida em dois filmes brasileiros indicados ao Oscar de melhor produção estrangeira.

O primeiro foi “O quatrilho”, dirigido por Fábio Barreto e lançado em 1995. A obra retrata dois casais de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul e as mudanças provocadas pela formação de novos relacionamentos.

Dois anos depois, “O que é isso, companheiro?”, dirigido por Bruno Barreto, também recebeu uma indicação. O longa foi baseado no livro de Fernando Gabeira e aborda o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick durante a ditadura militar.

As indicações ampliaram a projeção internacional da produtora e reforçaram a importância de Barretão para o cinema brasileiro.


Do Ceará para o Rio de Janeiro

Luiz Carlos Barreto nasceu em 1928, em Sobral, no interior do Ceará.

Em 1947, aos 19 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e conseguiu um emprego na Companhia Siderúrgica Nacional.

A aproximação com o jornalismo ocorreu no início da década de 1950, quando passou a trabalhar como repórter nos Diários Associados.

Ele atuou inicialmente na revista “A Cigarra” e depois ingressou em “O Cruzeiro”, uma das publicações mais importantes daquele período.

Na revista, começou a se dedicar com maior intensidade ao fotojornalismo, atividade que abriu caminho para sua futura carreira no cinema.


Encontro com Lucy Barreto transformou sua vida

Luiz Carlos conheceu Lucy Barreto em 1952, durante uma reportagem realizada na casa da família dela, no Rio de Janeiro.

O local servia de cenário para uma entrevista com a então Miss Goiás. Enquanto Barreto fazia as fotografias, Lucy sentou-se ao piano e começou a tocar.

O relacionamento foi interrompido temporariamente quando ela recebeu uma bolsa para estudar piano em Paris.

Ao descobrir que Lucy poderia estar se aproximando de outro homem, Barreto decidiu viajar para a França. Na capital francesa, matriculou-se no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos.

Embora tenha permanecido pouco tempo no curso, utilizou sua carteira de jornalista para acompanhar filmagens, conhecer estúdios e conversar com diretores e produtores. Posteriormente, definiu essa experiência como sua verdadeira formação cinematográfica.


Casamento durou mais de sete décadas

Luiz Carlos e Lucy se casaram em Paris, em 1954, e retornaram ao Brasil pouco tempo depois.

Os dois construíram uma parceria pessoal e profissional que atravessou mais de sete décadas.

Lucy passou a atuar diretamente na produtora e se tornou uma das figuras centrais na realização dos projetos da família.

Juntos, ficaram conhecidos como um dos casais mais importantes do audiovisual brasileiro.

Em entrevista concedida em 2025, Lucy contou que Barretão era chamado assim pelo público e pelos colegas, mas que, para ela, continuava sendo “Barretinho”.


Aproximação com o Cinema Novo

Em 1955, Barreto se aproximou de Nelson Pereira dos Santos durante a mobilização contra a censura ao filme “Rio, 40 graus”.

Anos depois, ainda como fotógrafo de “O Cruzeiro”, acompanhou as filmagens de “Barravento”, de Glauber Rocha, no interior da Bahia.

A experiência fortaleceu sua decisão de trabalhar definitivamente com cinema.

Convencido por Glauber, participou como corroteirista e coprodutor de “Assalto ao trem pagador”, dirigido por Roberto Farias e lançado em 1962.

O trabalho foi decisivo para a criação da L.C. Barreto no ano seguinte.


Cinema tornou-se tradição na família

Luiz Carlos e Lucy tiveram três filhos: Bruno, Fábio e Paula Barreto. Todos seguiram caminhos relacionados ao audiovisual.

Bruno consolidou-se como diretor e comandou filmes como “Dona Flor e seus dois maridos” e “O que é isso, companheiro?”.

Fábio dirigiu “O quatrilho” e “Lula, o filho do Brasil”. Em 2009, sofreu um grave acidente de carro e permaneceu em coma por dez anos, até morrer em 2019, aos 62 anos.

Paula Barreto assumiu a coordenação da produtora e deu continuidade ao trabalho iniciado pelos pais.

A ligação familiar com o audiovisual também alcançou os netos, vários dos quais trabalharam na empresa ou seguiram carreiras ligadas à fotografia, produção e direção.


Parceria com Cacá Diegues atravessou décadas

Barretão manteve uma longa parceria com o diretor Cacá Diegues, iniciada durante o Cinema Novo.

Um dos trabalhos mais conhecidos da dupla foi “Bye bye Brasil”, lançado em 1980.

O filme foi exibido em uma sessão especial no Festival de Cannes de 2024, como parte das homenagens pelos 60 anos da L.C. Barreto.

A produtora também participou de “Deus ainda é brasileiro”, continuação de “Deus é brasileiro”, novamente dirigida por Cacá Diegues e protagonizada por Antônio Fagundes.

O projeto foi rodado em 2022 e ainda não havia sido lançado.


Barretão também teve atuação política

Luiz Carlos Barreto foi um defensor permanente do cinema brasileiro e participou de debates sobre políticas públicas voltadas à cultura.

Em 2019, esteve em uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal para discutir uma ação contra mudanças realizadas pelo governo Jair Bolsonaro na estrutura do Conselho Superior do Cinema.

Durante a campanha eleitoral de 2022, aos 94 anos, participou de reuniões com artistas que defendiam a recriação do Ministério da Cultura.

Sua atuação refletia a compreensão de que o cinema dependia não apenas de criatividade e talento, mas também de políticas de financiamento, preservação e incentivo à produção nacional.


Vida foi retratada em documentário

A trajetória do produtor tornou-se tema do documentário “Barretão”, dirigido por Marcelo Santiago e lançado no final de 2019.

Narrado em primeira pessoa, o filme percorre a relação de Luiz Carlos Barreto com o jornalismo, o cinema e o futebol.

A produção também apresenta bastidores de sua vida familiar e de sua atuação durante momentos decisivos do audiovisual brasileiro.

O documentário ajudou a registrar as memórias de um profissional que acompanhou e influenciou mais de seis décadas de transformações culturais no país.


Queda em 2024 debilitou saúde do produtor

Em março de 2024, Barreto viajou ao Ceará para receber uma homenagem do governo estadual por sua contribuição ao cinema.

Durante a visita, sofreu uma queda em Fortaleza.

O produtor precisou passar por duas cirurgias e enfrentou um longo período de internação. Depois, retornou ao Rio de Janeiro para continuar o tratamento em casa.

Desde então, sua saúde permaneceu debilitada e ele passou a receber acompanhamento constante de profissionais de enfermagem, fisioterapia e cuidados particulares.

Barreto voltou a ser internado na terça-feira (21) e morreu na madrugada desta quarta.


Luiz Carlos Barreto deixa esposa, filhos e netos

O produtor deixa a esposa, Lucy Barreto, os filhos Paula e Bruno e nove netos.

Os netos são Julia, Mariana, Lucas e João, filhos de Fábio; Helena, Olympia e Gabriel, filhos de Bruno; e Camilla e Felipe, filhos de Paula.

A ligação da família com o audiovisual permanece presente nas novas gerações. Helena seguiu carreira como fotógrafa de cena, enquanto Julia atua como produtora e diretora.

Ao falar sobre essa continuidade, Barretão costumava dizer que “o vírus do cinema contaminou toda a família”.

Seu legado permanece nas dezenas de produções que ajudou a realizar, na formação de diferentes gerações de cineastas e na defesa constante de uma indústria cinematográfica brasileira forte e independente.

Veja também