Terceira fase da Operação Somnus cumpriu mandados no Pará e no Rio Grande do Sul; investigações começaram a partir de informações enviadas pela polícia alemã
A Polícia Federal prendeu nesta terça-feira (28) dois homens investigados por sedar mulheres, cometer crimes sexuais e compartilhar imagens dos abusos em grupos na internet.
As prisões ocorreram durante a terceira fase da Operação Somnus, investigação que apura a atuação de uma rede dedicada à produção e à divulgação de registros de violência sexual contra mulheres inconscientes.
Segundo a PF, existem indícios de que um dos investigados tenha cometido crimes contra a própria esposa. O segundo homem é suspeito de abusar sexualmente de integrantes de sua família.
Foram cumpridos mandados de busca e apreensão e de prisão temporária no Pará, além de uma prisão preventiva no Rio Grande do Sul.
Durante a operação, os agentes apreenderam medicamentos, telefones celulares e computadores. Os materiais serão submetidos à perícia para identificar possíveis vítimas, participantes dos grupos e outros crimes.
Investigados compartilhavam registros dos abusos
De acordo com as investigações, os suspeitos participavam de grupos virtuais utilizados para compartilhar fotografias e vídeos contendo cenas de violência sexual contra mulheres desacordadas.
Os investigadores apontam que os participantes também trocavam informações sobre substâncias com propriedades sedativas e discutiam formas de utilizá-las para deixar as vítimas inconscientes ou incapazes de oferecer resistência.
Os abusos seriam registrados e posteriormente distribuídos entre os integrantes dos grupos.
Nesta etapa, a Polícia Federal busca identificar todos os envolvidos, esclarecer a dimensão da rede e verificar se existem outras vítimas ainda desconhecidas pelas autoridades.
As acusações permanecem sob investigação. A responsabilização criminal dependerá da análise das provas e das conclusões apresentadas no inquérito.
Um dos suspeitos teria abusado da própria esposa
A investigação encontrou indícios de que um dos homens tenha cometido crimes sexuais contra a própria esposa.
Em outro caso, o alvo é suspeito de ter praticado abusos contra familiares. A Polícia Federal não revelou a identidade, a idade ou o município de residência das possíveis vítimas.
Os detalhes foram preservados para proteger as mulheres e evitar que elas possam ser identificadas.
O fato de a violência ocorrer dentro de uma relação conjugal ou familiar não afasta a possibilidade de crime. Qualquer ato sexual praticado sem consentimento, especialmente quando a vítima está inconsciente ou sem capacidade de resistência, pode configurar estupro de vulnerável.
Medicamentos e equipamentos são apreendidos
Os agentes federais apreenderam medicamentos que poderão ser analisados para determinar se possuem substâncias sedativas e se podem ter sido utilizados nos crimes investigados.
Também foram recolhidos celulares e computadores. Os equipamentos passarão por perícia para recuperar arquivos, mensagens, registros de acesso, históricos de comunicação e outros elementos relacionados aos grupos.
A análise poderá revelar quando os conteúdos foram produzidos, como circularam e quantas pessoas tiveram acesso ao material.
Os investigadores também tentarão identificar outros participantes que tenham produzido, solicitado, recebido ou compartilhado os registros.
A presença de arquivos nos dispositivos, isoladamente, ainda deverá ser contextualizada pela perícia e pelas demais provas reunidas durante o inquérito.
Prisões são cumpridas no Pará e no Rio Grande do Sul
No Pará, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão e de prisão temporária. No Rio Grande do Sul, foi executada uma ordem de prisão preventiva.
A prisão temporária possui prazo determinado e é utilizada durante uma investigação para impedir interferências na coleta de provas ou permitir o avanço das diligências.
Já a prisão preventiva não possui um prazo previamente estabelecido, mas precisa ser fundamentada pela Justiça e submetida a revisões conforme as regras processuais.
As ordens judiciais não representam condenações. Os investigados terão direito à defesa e somente poderão ser responsabilizados após o devido processo legal.
Operação começou com informações da polícia alemã
A Operação Somnus foi iniciada em 2025, após o Brasil receber informações da BKA, a Polícia Criminal Federal da Alemanha.
Os dados foram compartilhados dentro de uma cooperação internacional coordenada pela Europol e indicavam a existência de redes transnacionais voltadas à divulgação de registros de abusos sexuais contra mulheres sedadas.
A partir do material enviado, a Polícia Federal passou a investigar possíveis participantes brasileiros e a rastrear as comunicações realizadas nos grupos.
A cooperação entre diferentes países é necessária porque essas redes podem utilizar servidores, plataformas e serviços digitais localizados em várias partes do mundo.
Também é comum que os participantes estejam fisicamente distantes uns dos outros, embora compartilhem os mesmos conteúdos e métodos pela internet.
Primeira fase foi realizada em fevereiro
A primeira fase da Operação Somnus foi deflagrada em fevereiro de 2026, com o cumprimento de três mandados de prisão temporária e sete ordens de busca e apreensão.
As medidas foram executadas nos estados de São Paulo, Ceará, Pará, Santa Catarina e Bahia.
Aquela etapa teve como objetivo apurar crimes contra a dignidade sexual e identificar brasileiros que participavam de redes virtuais voltadas ao compartilhamento de registros de violência contra mulheres.
O avanço das perícias e a análise das informações apreendidas permitiram a abertura de novas frentes de investigação, culminando na terceira fase realizada nesta terça-feira.
A Polícia Federal não informou se novas operações serão realizadas, mas as investigações continuam.
Suspeitos poderão responder por diferentes crimes
Conforme o resultado das investigações, os envolvidos poderão responder por estupro de vulnerável, divulgação de cena de estupro ou de estupro de vulnerável e registro não autorizado da intimidade sexual.
Outros crimes também poderão ser incluídos caso sejam identificados durante a análise dos equipamentos e dos medicamentos apreendidos.
O estupro de vulnerável pode ser caracterizado quando a vítima, por qualquer motivo, não possui condições de oferecer resistência ou manifestar consentimento.
A divulgação de registros desse tipo constitui um crime separado da violência praticada contra a vítima. Isso significa que quem compartilha o conteúdo também pode ser responsabilizado, mesmo que não tenha participado diretamente do abuso.
As penas dependerão dos delitos comprovados, das circunstâncias de cada caso e da eventual participação individual dos investigados.
Perícia poderá revelar novas vítimas
Uma das prioridades da investigação será identificar as mulheres presentes nos arquivos apreendidos e verificar se elas possuem conhecimento da existência dos registros.
Em crimes dessa natureza, a vítima pode não saber que foi sedada, violentada ou filmada. Também pode descobrir a gravação somente depois que o conteúdo já circulou em grupos virtuais.
A perícia precisa ser conduzida com cuidado para preservar a intimidade das mulheres e impedir uma nova exposição.
As autoridades também deverão verificar se os mesmos arquivos continuam disponíveis em outras plataformas e solicitar a remoção dos conteúdos quando forem localizados.
A circulação repetida de imagens representa uma continuidade da violência sofrida pelas vítimas, mesmo depois da prática inicial do crime.
Operação investiga possível rede transnacional
A participação da polícia alemã e da Europol indica que a investigação não está limitada ao território brasileiro.
As redes transnacionais dificultam o trabalho das autoridades porque utilizam diferentes aplicativos, sistemas de armazenamento e mecanismos para esconder a identidade dos participantes.
A troca de informações entre países permite comparar perfis, endereços digitais e arquivos encontrados em diferentes investigações.
Com a terceira fase da Operação Somnus, a Polícia Federal pretende aprofundar a identificação dos participantes brasileiros e determinar a extensão dos crimes praticados.
Até a conclusão do inquérito e do processo judicial, os presos são considerados suspeitos e possuem direito à presunção de inocência. As informações divulgadas sobre a terceira fase foram confirmadas pela reportagem da CNN Brasil.
