Aeronave modificada para o Project Sunrise da Qantas percorreu 23.075 quilômetros entre Melbourne e Toulouse e tornou-se o segundo voo mais acompanhado da história do Flightradar24
Um Airbus A350-1000ULR completou um voo de teste com 24 horas e 24 minutos de duração, sem escalas, entre Melbourne, na Austrália, e Toulouse, na França.
A aeronave percorreu 23.075 quilômetros antes de pousar nesta terça-feira (28) na cidade francesa, onde está localizada uma das principais instalações industriais da Airbus.
O teste representa uma etapa importante do Project Sunrise, programa da Qantas que pretende estabelecer voos comerciais diretos entre a costa leste australiana e destinos como Londres e Nova York.
A companhia aérea australiana pretende inaugurar a rota sem escalas entre Sydney e Londres em outubro de 2027. A viagem deverá durar entre 19 e 21 horas, dependendo dos ventos e do trajeto utilizado.
Voo durou 24 horas e 24 minutos
O A350 partiu de Melbourne na segunda-feira (27) e seguiu uma rota incomum até a sede da Airbus em Toulouse.
Em vez de seguir diretamente para o oeste, a aeronave voou para o norte, atravessou o Oceano Pacífico, passou pela América do Norte e pelo Canadá e depois cruzou o Atlântico em direção à França.
O trajeto foi planejado para testar o desempenho do avião em uma operação de duração extrema.
Ao todo, o A350 permaneceu no ar por 24 horas e 24 minutos e percorreu 23.075 quilômetros sem realizar paradas para reabastecimento.
O percurso teve duração superior à planejada para os futuros serviços comerciais do Project Sunrise, que devem permanecer no ar por até aproximadamente 22 horas.
Aeronave foi modificada para voos ultralongos
O avião utilizado é uma versão especialmente adaptada do Airbus A350-1000, denominada A350-1000ULR, sigla utilizada para identificar aeronaves de alcance ultralongo.
Entre as principais modificações está a instalação de um tanque adicional com capacidade para aproximadamente 20 mil litros de combustível.
A capacidade extra permitirá que o modelo opere rotas entre a Austrália, a Europa e a costa leste dos Estados Unidos sem necessidade de escalas técnicas.
A Airbus também realizou mudanças nos sistemas da aeronave para acompanhar o consumo, a transferência e o gerenciamento do combustível durante operações prolongadas.
O voo entre Melbourne e Toulouse serviu para avaliar esses sistemas em condições próximas dos limites de autonomia planejados para o modelo.
Teste faz parte de campanha de dois meses
A Airbus conduz desde junho uma campanha de testes com o A350-1000ULR desenvolvido para a Qantas.
O programa deverá durar aproximadamente dois meses e inclui avaliações dos sistemas de combustível, desempenho, autonomia e comportamento da aeronave em voos de duração extrema.
Antes da viagem de retorno à França, o mesmo avião havia realizado um voo sem escalas entre Toulouse e Melbourne.
Na primeira etapa, a aeronave percorreu aproximadamente 17 mil quilômetros em pouco mais de 19 horas, pousando pela primeira vez em território australiano.
Pilotos e engenheiros de testes da Airbus participaram das operações. Na viagem de retorno, integrantes da Qantas também acompanharam a tripulação responsável pela avaliação.
Milhões acompanharam o voo pela internet
O voo despertou grande interesse entre entusiastas da aviação e usuários de plataformas de rastreamento.
Segundo o Flightradar24, mais de 3,6 milhões de pessoas acompanharam o deslocamento da aeronave durante a viagem para Toulouse.
O número transformou a operação no segundo voo mais acompanhado da história da plataforma.
O recorde permanece com o avião que transportou o caixão da rainha Elizabeth II entre Edimburgo e Londres em 2022.
A rota incomum do A350, que seguiu em direção à América do Norte antes de chegar à Europa, contribuiu para ampliar a curiosidade dos usuários.
Project Sunrise pretende eliminar escalas
O Project Sunrise foi criado pela Qantas para permitir ligações diretas entre a costa leste da Austrália e cidades distantes da Europa e da América do Norte.
Atualmente, passageiros que viajam entre Sydney e Londres normalmente precisam realizar ao menos uma escala em cidades da Ásia ou do Oriente Médio.
A proposta da companhia é eliminar essa parada e reduzir o tempo total da viagem.
Os primeiros destinos anunciados são Londres e Nova York, com partidas de Sydney. As operações deverão estar entre os serviços comerciais de passageiros mais longos do mundo.
O nome Project Sunrise faz referência aos passageiros que poderão observar dois nasceres do sol durante uma única viagem por causa da duração do voo e das mudanças de fuso horário.
Sydney–Londres deverá começar em outubro de 2027
A Qantas pretende iniciar os voos diários sem escalas entre Sydney e Londres em outubro de 2027.
A duração prevista varia entre 19 e 21 horas, conforme as condições meteorológicas, os ventos e a rota autorizada para cada operação.
A companhia também planeja utilizar o A350-1000ULR entre Sydney e Nova York.
O primeiro avião destinado às operações comerciais deverá ser entregue em abril de 2027. O período entre a entrega e a estreia será utilizado para treinamento das tripulações, voos de familiarização e preparação operacional.
A programação ainda depende da conclusão dos testes e das certificações necessárias.
Qantas encomendou 12 aeronaves modificadas
A Qantas possui uma encomenda de 12 unidades do A350-1000ULR para o Project Sunrise.
Os aviões serão configurados para transportar somente 238 passageiros, quantidade inferior à capacidade normalmente oferecida por um A350-1000.
A redução permitirá oferecer mais espaço aos passageiros e acomodar áreas específicas para uma viagem que poderá ultrapassar 20 horas.
A configuração prevista terá primeira classe, classe executiva, econômica premium e econômica.
A companhia também desenvolveu uma área de bem-estar na qual os passageiros poderão se alongar e se movimentar durante o voo.
Cabine será preparada para reduzir efeitos do jet lag
Além da autonomia da aeronave, o conforto dos passageiros é um dos principais desafios do Project Sunrise.
A Qantas estudou os efeitos de voos ultralongos sobre o sono, a alimentação e o ritmo biológico dos viajantes.
A iluminação da cabine deverá ser ajustada conforme os horários dos destinos, ajudando o organismo a se adaptar gradualmente ao novo fuso.
As refeições também poderão ser servidas em horários planejados para reduzir os efeitos do jet lag.
O A350 possui ainda menor altitude interna de cabine, sistemas modernos de ventilação e níveis reduzidos de ruído quando comparado a aeronaves de gerações anteriores.
Voo supera marca estabelecida por Boeing 777
Em 2005, um Boeing 777-200LR Worldliner realizou um voo entre Hong Kong e Londres com 22 horas e 42 minutos de duração.
A aeronave percorreu 21.601,7 quilômetros em uma rota realizada no sentido leste, atravessando o Pacífico e a América do Norte antes de chegar à capital britânica.
O teste do A350-1000ULR superou aquela distância e ultrapassou a barreira das 24 horas no ar.
Apesar disso, a classificação como recorde oficial depende dos critérios utilizados, já que se tratou de um voo de teste e não de uma operação comercial regular com passageiros.
O marco demonstra, porém, a capacidade de autonomia alcançada pela versão modificada do A350.
Viagem para Londres já levou cinco dias
As ligações aéreas entre Austrália e Reino Unido passaram por uma transformação profunda ao longo das últimas décadas.
A histórica Kangaroo Route, entre Sydney e Londres, levava aproximadamente cinco dias em seus primeiros anos e exigia diversas paradas ao longo do trajeto.
Com a evolução das aeronaves, a duração diminuiu e o número de escalas foi reduzido.
O Project Sunrise pretende transformar essa viagem em uma única operação contínua de aproximadamente 20 horas.
A eliminação da escala poderá reduzir o tempo total, mas também criará desafios relacionados ao conforto, à fadiga das tripulações e à adaptação dos passageiros.
Voo abre nova etapa da aviação de ultralongo alcance
A operação entre Melbourne e Toulouse demonstrou que o A350-1000ULR possui capacidade para permanecer mais de um dia inteiro no ar.
Os próximos testes deverão avaliar outros aspectos do desempenho e confirmar se a aeronave atende aos requisitos necessários para a certificação.
A Qantas ainda precisará preparar pilotos, comissários, equipes de manutenção e procedimentos específicos para as futuras rotas.
Se o cronograma for mantido, o primeiro avião será entregue em abril de 2027 e a ligação diária entre Sydney e Londres começará seis meses depois.
O voo experimental de 24 horas e 24 minutos, portanto, não será oferecido comercialmente nesse formato, mas representa um passo decisivo para tornar possíveis algumas das rotas regulares mais longas da história da aviação.
