Seis dias após os terremotos que devastaram o norte da Venezuela, operações de resgate continuam em meio ao aumento do número de vítimas, colapso da infraestrutura e uma crise humanitária que mobiliza organizações internacionais.
A Venezuela segue enfrentando uma das maiores tragédias de sua história recente. Seis dias após os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o norte do país, as equipes de resgate continuam a busca por sobreviventes em meio aos escombros, enquanto o número de mortos chega a 1.719, com mais de 5 mil feridos e uma estimativa de cerca de 50 mil desaparecidos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
O cenário mais crítico está concentrado no estado de La Guaira, onde o principal porto da região precisou ser transformado em um necrotério improvisado para receber os corpos retirados dos edifícios que desabaram. Paralelamente, uma análise feita com imagens de satélite aponta que quase 59 mil construções podem ter sido danificadas ou destruídas pelos tremores.
Porto de La Guaira se transforma em necrotério improvisado
Com os necrotérios dos hospitais completamente lotados, as autoridades instalaram uma estrutura emergencial no porto de La Guaira para receber as vítimas retiradas dos escombros.
No local, médicos legistas trabalham ao ar livre entre dezenas de sacos mortuários e caixões, enquanto familiares enfrentam longas filas para reconhecer parentes desaparecidos.
Em meio ao cenário de destruição, funerárias passaram a oferecer gratuitamente serviços de traslado e cremação para ajudar as famílias afetadas.
Relatos emocionantes marcam o trabalho de identificação. Muitos corpos só puderam ser reconhecidos por objetos pessoais, como alianças, anéis e roupas encontradas junto às vítimas.

Buscas entram em fase crítica
As operações de resgate seguem mobilizadas em diversas cidades da região costeira venezuelana.
Especialistas alertam que as chances de encontrar sobreviventes diminuem significativamente após as primeiras 72 horas, embora casos excepcionais ainda ocorram. Um dos exemplos foi o resgate de um jovem encontrado com vida após permanecer 106 horas soterrado.
Além das dificuldades provocadas pelo grande volume de destroços, socorristas enfrentam temperaturas elevadas, falta de equipamentos e novos tremores secundários registrados nos últimos dias.
Moradores também relatam demora na chegada da ajuda oficial, afirmando que boa parte das buscas iniciais foi realizada por voluntários e pela própria população.
Satélites apontam quase 59 mil construções possivelmente atingidas
Enquanto as equipes atuam em campo, pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon divulgaram uma análise preliminar baseada em imagens do satélite europeu Sentinel-1.
O levantamento estima que aproximadamente 58,9 mil edifícios apresentem indícios de danos ou destruição após os terremotos.
A maior concentração dos possíveis estragos está na faixa costeira central da Venezuela e na região metropolitana de Caracas, áreas que registraram os abalos mais intensos.
Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que os dados ainda são preliminares e dependem de inspeções presenciais para confirmar a situação de cada construção.
Segundo os especialistas, o objetivo principal do estudo é orientar as equipes de emergência sobre os locais com maior probabilidade de destruição.
Crise humanitária mobiliza apoio internacional
A dimensão da tragédia fez crescer a mobilização de organismos internacionais.
A ONU anunciou o envio de 10 mil bolsas mortuárias para auxiliar as autoridades venezuelanas diante do elevado número de mortes.
Já a Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que mais de 6 milhões de pessoas possam ter sido afetadas direta ou indiretamente pelos terremotos.
Ao mesmo tempo, milhares de famílias permanecem desalojadas, muitas dormindo em ruas e praças por medo de novos desabamentos.
Conjuntos habitacionais inteiros foram evacuados após o surgimento de grandes rachaduras nas estruturas, enquanto centenas de edifícios apresentam risco de colapso.
Novos tremores aumentam preocupação
Mesmo quase uma semana após o desastre, a atividade sísmica continua.
Na segunda-feira (29), um novo tremor de magnitude 4,6 foi registrado próximo à cidade de Caraballeda, no litoral norte do país.
Dias antes, outros abalos de magnitudes entre 4,2 e 4,5 também haviam sido registrados, aumentando a preocupação das autoridades e dificultando ainda mais o trabalho das equipes de resgate.
Enquanto isso, o principal aeroporto internacional da Venezuela, localizado em Maiquetía, permanece fechado, embora outros terminais do país já tenham retomado parte das operações.
Tragédia ainda está longe do fim
Com milhares de pessoas ainda desaparecidas, centenas de prédios comprometidos e uma extensa operação de busca em andamento, a Venezuela continua vivendo uma corrida contra o tempo.
As autoridades mantêm as operações de resgate e assistência às famílias atingidas, enquanto especialistas trabalham para dimensionar o tamanho real da destruição.
À medida que novos corpos são encontrados e as avaliações estruturais avançam, cresce a preocupação de que o impacto dos terremotos seja ainda maior do que o registrado nos balanços oficiais divulgados até o momento.
