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Infantino oferece até US$ 40 milhões por apoio a plano que abre Copa a investidores

Presidente da Fifa deu prazo de 53 dias para federações aceitarem projeto de subsidiária avaliada em US$ 20 bilhões; negociação envolve Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump


O presidente da Fifa, Gianni Infantino, estabeleceu um prazo de 53 dias para que as 211 federações filiadas decidam se apoiam a criação de uma empresa responsável pelos direitos comerciais e pela operação dos principais torneios organizados pela entidade.

Batizado de Fifa Forward Enterprise (FFE), o projeto prevê uma subsidiária avaliada em US$ 20 bilhões, aproximadamente R$ 102 bilhões, com possibilidade de venda de uma participação minoritária a investidores privados.

Em uma carta encaminhada às associações nacionais, Infantino fixou o dia 19 de setembro de 2026 como prazo para manifestação. As federações que aderirem à proposta poderão ter acesso a até US$ 40 milhões cada uma durante o próximo ciclo de financiamento.

A oferta provocou forte reação nos bastidores do futebol internacional. Dirigentes contrários ao projeto afirmam que a vinculação entre apoio político e acesso a recursos cria uma pressão financeira sobre as federações. Um dos opositores ouvidos pela imprensa britânica classificou a proposta como “puro suborno”.

A Fifa rejeita essa interpretação e sustenta que a decisão será democrática, dependerá do apoio da maioria das associações e ainda precisará ser aprovada pelo Conselho da entidade.


Projeto cria subsidiária avaliada em US$ 20 bilhões

A Fifa Forward Enterprise seria responsável por reunir as operações comerciais e a organização de eventos da entidade.

A nova companhia administraria áreas como direitos de transmissão, patrocínios, venda de ingressos, licenciamento e operação das competições, incluindo as Copas do Mundo masculina, feminina e de clubes.

A estrutura foi avaliada inicialmente em US$ 20 bilhões. A proposta divulgada oficialmente prevê a venda de até 20% da subsidiária a investidores privados, sem transferência do controle esportivo ou institucional da Fifa.

Com a operação, a entidade poderia arrecadar até US$ 4,2 bilhões em capital privado. Segundo a Fifa, os investidores teriam participações minoritárias e não poderiam controlar decisões relacionadas às regras, à governança ou à condução esportiva dos torneios. A proposta oficial prevê ampliar para mais de US$ 10 bilhões os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol.

Reportagens iniciais mencionaram a possibilidade de negociação de uma parcela entre 20% e 30% dos direitos comerciais. A comunicação formal apresentada pela entidade, contudo, fala em até 20% de participação na nova empresa, mantendo a Fifa como controladora.


Federações têm até setembro para decidir

Na carta encaminhada às 211 associações nacionais, Infantino estabeleceu o dia 19 de setembro como limite para as adesões.

Para que o projeto avance, será necessário obter o apoio de mais de 50% das federações. Depois disso, o Conselho da Fifa precisará aprovar as alterações regulamentares exigidas pela nova estrutura.

O presidente da entidade afirmou que a decisão pertence inteiramente às associações e será conduzida de acordo com os princípios democráticos da organização.

Apesar desse discurso, críticos questionam se uma votação pode ser considerada plenamente livre quando está associada ao acesso a valores muito superiores aos oferecidos pelo modelo atual.

A principal preocupação é que federações menores e financeiramente dependentes da Fifa tenham poucos incentivos para rejeitar o plano, mesmo que apresentem dúvidas sobre a governança da nova empresa.


Apoio poderá render até US$ 40 milhões

O pacote apresentado por Infantino possui duas frentes principais de financiamento.

A primeira prevê elevar os recursos do programa Fifa Forward de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões por federação no ciclo iniciado em 1º de janeiro de 2027.

A segunda cria o chamado Fifa Fast-Forward, que ofereceria outros US$ 20 milhões em uma oportunidade extraordinária às associações dispostas a participar do novo modelo.

Dessa forma, cada federação poderia acessar até US$ 40 milhões no próximo ciclo. A entidade afirma que o dinheiro deverá financiar infraestrutura, formação de treinadores, seleções nacionais, competições locais, futebol de base e futebol feminino.

Em um período de três ciclos, correspondente a 12 anos, Infantino estima que cada associação poderá receber aproximadamente US$ 86 milhões.

O presidente comparou esse valor aos cerca de US$ 3 milhões que, segundo ele, eram distribuídos a cada federação em período equivalente antes de sua chegada ao comando da Fifa.


Rejeição reduziria acesso ao novo pacote

Caso as associações rejeitem o projeto, a Fifa afirma que manterá a expansão anteriormente planejada do programa Forward, estimada em US$ 2,7 bilhões no total.

Esse montante é significativamente inferior ao pacote superior a US$ 10 bilhões associado à nova empresa.

As federações que não aderirem também poderão ficar fora da parcela extraordinária prevista no Fast-Forward, mesmo que o projeto seja aprovado pela maioria.

É justamente essa diferença que alimenta as acusações de pressão financeira. Para os opositores, Infantino oferece recursos difíceis de recusar e, ao mesmo tempo, deixa claro que rejeitar o plano significará abrir mão de uma parcela considerável do financiamento potencial.

A Fifa argumenta que não se trata de punição, mas de uma escolha entre a manutenção do modelo atual e a participação em uma nova estrutura comercial.


Críticos apontam possível sistema de duas categorias

A vinculação entre adesão e financiamento poderá criar um sistema de duas categorias dentro da Fifa.

De um lado ficariam as associações que apoiarem o projeto e receberem acesso ao pacote completo. Do outro, estariam aquelas que rejeitarem a participação privada e permanecerem limitadas ao programa tradicional.

Essa diferença poderia alterar o equilíbrio político e esportivo do futebol mundial, especialmente porque muitas federações dependem dos repasses da Fifa para manter suas seleções, campeonatos e projetos de formação.

Países com estruturas comerciais menores dificilmente conseguiriam compensar, por meio de receitas próprias, a perda de dezenas de milhões de dólares.

Por isso, opositores consideram que a proposta não apresenta apenas uma escolha empresarial. Na avaliação desse grupo, ela utiliza o poder financeiro da Fifa para construir a maioria necessária à aprovação.


Uefa reage e cobra transparência

A União das Associações Europeias de Futebol, a Uefa, está entre as principais adversárias do projeto.

A entidade europeia argumenta que a Fifa não é proprietária do futebol e não poderia negociar parte de seus principais torneios sem uma consulta ampla a confederações, federações, clubes, jogadores e torcedores.

Além da Uefa, representantes de outras regiões afirmaram ter sido surpreendidos pelo anúncio. Concacaf e Confederação Asiática questionaram a falta de informações e de participação prévia no processo.

A reação aumentou depois que dirigentes souberam que as negociações haviam avançado sem o conhecimento da maioria dos membros da própria Fifa.

A entidade europeia também avalia os possíveis impactos sobre o calendário, a autonomia das confederações e a relação entre a Copa do Mundo e competições como a Liga dos Campeões.

A proposta provocou reação internacional porque coloca parte do negócio das Copas nas mãos de investidores externos pela primeira vez em escala tão ampla. A subsidiária teria valor inicial de US$ 20 bilhões e poderia vender uma fatia de até 20%.


Fifa promete manter controle esportivo

Em resposta às críticas, a Fifa afirma que continuará responsável por todas as decisões esportivas e de governança.

Os investidores não teriam poder para alterar regras, escolher países-sede, modificar formatos de competições ou interferir diretamente em questões disciplinares.

A atuação privada estaria limitada à estrutura comercial e operacional da Fifa Forward Enterprise.

Entretanto, os críticos consideram difícil separar completamente os interesses comerciais das decisões esportivas. Calendários, horários das partidas, formatos de torneios, escolha de sedes e estratégias de expansão possuem impacto direto sobre o valor dos direitos negociados.

O temor é de que a necessidade de entregar retorno financeiro aos investidores aumente a pressão por mais jogos, novas competições e decisões orientadas prioritariamente pelo potencial de receita.


Joshua Kushner participa das negociações

Um dos principais nomes envolvidos no projeto é o investidor norte-americano Joshua Kushner, fundador da Thrive Capital e ligado à iniciativa de investimentos Thrive Eternal.

O grupo é apontado como provável líder do consórcio interessado em adquirir a participação minoritária na Fifa Forward Enterprise.

Joshua é irmão de Jared Kushner, marido de Ivanka Trump e genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Jared atua em negociações diplomáticas do governo norte-americano e mantém proximidade com a Casa Branca. A participação de seu irmão no projeto acrescentou uma dimensão política às discussões sobre a nova empresa.

Não existe, até o momento, indicação de que Jared ou Trump participem diretamente da negociação. A ligação familiar, entretanto, reforçou os questionamentos sobre a proximidade entre Infantino e o presidente norte-americano.


Projeto amplia histórico de proximidade com Trump

A participação de Joshua Kushner é mais um episódio na relação construída entre Infantino e Donald Trump.

Os dois apareceram juntos em diversas ocasiões durante a preparação e a realização da Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, Canadá e México.

Trump também esteve ao lado de Infantino na cerimônia de entrega do troféu do Mundial, realizada em 19 de julho.

A proximidade ultrapassou os eventos institucionais relacionados à organização da Copa. Decisões tomadas pela Fifa durante os últimos meses provocaram acusações de favorecimento e de interferência política.

Embora a entidade sustente sua independência, críticos afirmam que Infantino adotou uma relação pública com Trump muito mais próxima do que aquela mantida com outros chefes de Estado.


Prêmio da Paz para Trump provocou questionamentos

No fim de 2025, a Fifa criou o Prêmio da Paz – O Futebol Une o Mundo, entregue pela primeira vez a Donald Trump.

A premiação aconteceu cerca de dois meses depois de a venezuelana María Corina Machado ser anunciada como vencedora do Prêmio Nobel da Paz, reconhecimento publicamente desejado pelo presidente norte-americano.

A Fifa afirmou que Trump foi homenageado por seus esforços em favor do diálogo e da resolução de conflitos internacionais.

A escolha foi contestada por entidades e organizações ligadas à governança esportiva. A Federação Norueguesa de Futebol apoiou pedidos de análise sobre a compatibilidade da premiação com as regras de neutralidade política da Fifa.

O episódio fortaleceu a percepção de alinhamento pessoal entre Infantino e Trump, especialmente porque a criação da categoria ocorreu durante a preparação para o Mundial sediado parcialmente pelos Estados Unidos.


Caso Balogun aumentou suspeitas de interferência

A relação entre os dois dirigentes voltou ao centro das atenções durante a Copa do Mundo.

O atacante norte-americano Folarin Balogun havia recebido um cartão vermelho e deveria cumprir suspensão automática. Trump telefonou para Infantino e pediu que a Fifa revisasse a decisão disciplinar.

Posteriormente, a suspensão foi colocada em período probatório, permitindo que o jogador enfrentasse a Bélgica nas oitavas de final.

Trump confirmou ter pedido a revisão, mas negou ter pressionado a entidade para obter a liberação do atleta. A Uefa classificou a decisão como sem precedentes e prejudicial à credibilidade da competição. A intervenção e a posterior liberação de Balogun provocaram pedidos de investigação ética.

A seleção norte-americana acabou eliminada depois de perder por 4 a 1 para a Bélgica, mas o resultado não encerrou a controvérsia sobre o processo disciplinar.


Fifa afirma buscar democratização do futebol

Infantino apresenta a nova empresa como uma ferramenta para distribuir melhor as receitas geradas pelas competições internacionais.

Segundo o presidente, parte significativa da indústria do futebol conseguiu transformar sua popularidade em valor comercial, mas os benefícios permanecem concentrados em poucos países e clubes.

O objetivo declarado da Fifa é utilizar o capital privado para financiar estruturas esportivas em regiões com menor capacidade de arrecadação.

A entidade afirma que até as menores e mais remotas associações terão acesso a recursos para construir centros de treinamento, organizar campeonatos e desenvolver jogadores.

Para Infantino, permitir que cada federação decida sobre sua participação representa uma forma de democratizar o futebol mundial.


Plano pode mudar equilíbrio de poder no futebol

A disputa ultrapassa o debate sobre financiamento. O projeto também envolve o equilíbrio de poder entre a Fifa, as confederações continentais, as federações nacionais e investidores privados.

Ao ampliar diretamente os repasses para as 211 associações, Infantino fortalece a relação entre a presidência da entidade e os dirigentes que possuem direito a voto.

Federações pequenas têm o mesmo peso eleitoral das principais potências do futebol. Uma maioria construída com o apoio de países dependentes dos recursos do Forward poderá superar a oposição europeia.

O modelo reduziria a capacidade da Uefa de bloquear o projeto dentro da estrutura política da Fifa, mesmo que as federações europeias concentrem alguns dos campeonatos e mercados mais valiosos do mundo.

Essa dinâmica explica por que a oferta de até US$ 40 milhões por associação é vista como elemento central da disputa.


Decisão definirá futuro comercial das Copas

As federações terão até 19 de setembro para decidir se participarão do processo.

Se mais da metade das 211 associações apoiar a proposta, o projeto será encaminhado ao Conselho da Fifa para a aprovação das mudanças necessárias.

Caso seja implementada, a Fifa Forward Enterprise poderá alterar profundamente a forma como a Copa do Mundo e os demais torneios da entidade são financiados e administrados comercialmente.

A entrada de investidores privados poderá gerar bilhões de dólares para programas esportivos. Ao mesmo tempo, abrirá questionamentos sobre transparência, conflitos de interesse e influência empresarial sobre o esporte.

O debate central não está apenas no valor oferecido. As federações precisarão decidir se os benefícios financeiros compensam entregar a investidores uma participação no negócio das principais competições de futebol do planeta.