Ministro da Justiça afirma que saída tem caráter pessoal e familiar; despedida lança incertezas sobre a PEC da Segurança Pública
Lewandowski pede exoneração do Ministério da Justiça
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, encaminhou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma carta em que pede exoneração do cargo a partir de 9 de janeiro de 2026. No documento, ele afirma que a decisão tem “caráter pessoal e familiar” e ressalta que comandou a pasta com “zelo e dignidade”, apesar das limitações políticas, conjunturais e orçamentárias.
Lewandowski assumiu o ministério em fevereiro de 2024, após se aposentar do Supremo Tribunal Federal (STF), e vinha sendo um dos principais articuladores da agenda de segurança pública do governo.
Elogios a Lula e balanço da gestão
Na carta, o agora ex-ministro elogia o presidente da República, a quem chama de “inspiradora liderança”, destacando o compromisso de Lula com o progresso e o bem-estar da população. Lewandowski também agradece o apoio recebido ao longo do período em que esteve à frente da pasta.
A avaliação interna é de que a saída ocorreu antes do desejado pelo Planalto, especialmente em um momento de debates sensíveis no Congresso envolvendo segurança pública, crime organizado e o sistema prisional.
Leia a íntegra da carta de Ricardo Lewandowski
“Excelentíssimo Senhor Presidente da República,
1. Sirvo-me do presente para, respeitosamente, apresentar o meu pedido de exoneração do cargo de Ministro de Estado da Justiça e Segurança Pública, por razões de caráter pessoal e familiar, a partir de 9 de janeiro de 2026.
2. Tenho a convicção de que exerci as atribuições do cargo com zelo e dignidade, exigindo de mim e de meus colaboradores o melhor desempenho possível em prol de nossos administrados, consideradas as limitações políticas, conjunturais e orçamentárias das circunstâncias pelas quais passamos.
3. Ressalto que tive o privilégio de continuar servindo ao País – depois de aposentar-me como Ministro do Supremo Tribunal Federal – sob a inspiradora liderança de Vossa Excelência, sempre comprometida com o progresso e o bem-estar de todos os brasileiros.
4. Agradecendo o permanente estímulo e apoio com que fui honrado ao longo desses quase dois anos à frente da Pasta, aproveito o ensejo para reiterar minha manifestação de elevado apreço e distinta consideração.
Respeitosamente,
RICARDO LEWANDOWSKI”
Impacto da saída na PEC da Segurança Pública
Proposta perde principal defensor e futuro fica indefinido
A saída de Lewandowski aumenta as incertezas sobre a PEC da Segurança Pública, considerada a principal vitrine de sua gestão no ministério. O texto já havia sido alterado na Câmara dos Deputados em relação à proposta original apresentada pelo governo e enfrentava resistência de governadores, oposição e parte do centrão.
Parlamentares avaliam que, sem o ministro como principal articulador, a tendência é a proposta perder força, a menos que seja diretamente apadrinhada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que tem defendido o avanço de pautas ligadas à segurança.
Avanços e dificuldades à frente da pasta
Durante sua gestão, Lewandowski obteve vitórias relevantes, como a ampliação do uso obrigatório de câmeras corporais por policiais em 11 estados e a consolidação do programa Celular Seguro.
Por outro lado, enfrentou resistências dentro do próprio governo, dificuldades na articulação com o Congresso e limitações para avançar com projetos estruturantes, especialmente em um ambiente político polarizado.
Sucessão no Ministério da Justiça entra no radar do Planalto
Com a confirmação da saída de Ricardo Lewandowski, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já avalia ao menos dois nomes para comandar o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre os mais cotados estão Wellington César Lima e Silva, jurista com bom trânsito no Planalto e passagem anterior pela pasta no governo Dilma Rousseff, e o atual ministro da Educação, Camilo Santana, lembrado pela atuação firme na crise de segurança do Ceará em 2020. Segundo aliados, Lula busca um perfil combativo e, ao mesmo tempo, diplomático, capaz de defender as pautas de segurança no Congresso sem ampliar tensões políticas em ano eleitoral.
Possível fatiamento do ministério
Com a saída de Lewandowski, volta ao centro do debate a possibilidade de fatiamento do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, promessa de campanha de Lula. A divisão, no entanto, levanta dúvidas sobre custos, prazos e viabilidade política.
Independentemente do formato da pasta, o combate ao crime organizado deve ganhar ainda mais peso na agenda do governo em 2026, especialmente em um ano eleitoral, com projetos como o PL Antifacção e a própria PEC da Segurança Pública ainda em discussão no Congresso.



