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Presença tímida em Davos levanta dúvidas sobre a relevância do Brasil no cenário global

Envio de delegação reduzida ao Fórum Econômico Mundial acende alerta entre analistas, que veem perda de protagonismo, baixa atratividade a investimentos e falta de estratégia internacional


Delegação enxuta chama atenção no Fórum Econômico Mundial

A decisão do governo brasileiro de enviar uma delegação reduzida ao Fórum Econômico Mundial de 2026, em Davos, na Suíça, gerou críticas entre economistas, analistas de mercado e especialistas em relações internacionais. Tradicionalmente utilizado como uma vitrine para atração de investimentos e fortalecimento diplomático, o evento contará neste ano com apenas uma representante do primeiro escalão do governo brasileiro: a ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.

Para analistas, a escolha sinaliza que o Brasil não vê condições favoráveis para apresentar uma agenda robusta ao investidor internacional, nem disposição política para disputar espaço entre as principais economias globais no encontro.


Davos como termômetro de relevância internacional

O Fórum Econômico Mundial reúne anualmente cerca de 3 mil participantes, entre eles chefes de Estado, ministros, executivos de grandes corporações e líderes de organismos multilaterais. Em edições anteriores, o Brasil costumava enviar comitivas numerosas, incluindo ministros da área econômica e até a presidência da República.

Em 2026, a presença brasileira contrasta com a de países que enxergam o evento como estratégico. Estão confirmados, por exemplo, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, em um momento marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e debates sobre segurança energética e territorial.


Críticas à política fiscal e à credibilidade econômica

Para o economista Igor Lucena, ex-presidente do Corecon, a ausência de uma delegação mais robusta reflete dificuldades estruturais da economia brasileira, especialmente na área fiscal.

“As estatísticas do Brasil estão tão maquiadas que hoje ninguém acredita mais em superávit. Tudo tem que ser baseado na razão dívida-PIB com órgãos internacionais. O Brasil está enrolando as contas públicas, só que a comunidade internacional sabe disso”, afirmou.

Segundo ele, a falta de equilíbrio fiscal compromete a imagem do país diante de economias mais organizadas, reduzindo a confiança de investidores e limitando o interesse internacional pelo Brasil.


Desgaste diplomático e ambiguidade geopolítica

Além das questões econômicas, analistas apontam um desgaste da imagem brasileira na Europa, provocado pela ausência de posições claras em temas sensíveis do cenário internacional, como a guerra entre Rússia e Ucrânia.

“O Brasil perde credibilidade hoje com atores europeus. Tornou-se um país sem opiniões claras durante o governo Lula”, avaliou Lucena.

Ele citou episódios em que o Brasil evitou se posicionar de forma mais direta em alinhamento com parceiros europeus, o que teria contribuído para a percepção de um país hesitante e pouco previsível no tabuleiro geopolítico.


Perda de atratividade para investimentos

Na avaliação do analista de economia Gilvan Bueno, a presença limitada em Davos reforça a ideia de que o Brasil tem perdido espaço na disputa global por investimentos.

“É um sinal claro de que temos perdido relevância internacional e oportunidades de investimentos. Quando olhamos a parte de abertura de capital no Brasil, não temos grandes empresas fazendo IPO”, afirmou.

Segundo ele, a falta de grandes operações no mercado de capitais indica que o investidor estrangeiro não está olhando para a economia brasileira como prioridade.

“Juros reais muito altos, crescimento baseado no consumo e baixo investimento privado são fatores que afastam o investidor internacional”, acrescentou.


Prioridade do governo estaria voltada ao cenário interno

Para José Pimenta, diretor de Comércio Internacional de uma consultoria especializada, a decisão de enviar uma comitiva reduzida reflete uma escolha política clara.

“O governo brasileiro, por mandar uma delegação bem reduzida a Davos, está muito mais preocupado com o ambiente interno, com a desaceleração do PIB, a questão fiscal e os rumos da economia para 2026, que é um ano importante pelas eleições”, explicou.

Ele destacou que o próprio histórico brasileiro no fórum demonstra que o país reconhece a importância do evento, o que torna a ausência ainda mais significativa.


Brasil desperdiça espaço estratégico, dizem especialistas

A avaliação crítica também foi compartilhada por Rubens Barbosa, especialista em relações internacionais, que classificou a participação brasileira como uma oportunidade perdida.

“O Brasil perdeu a oportunidade de ter uma representação forte no Fórum Econômico Mundial”, afirmou.

Para ele, o país carece de uma estratégia internacional de médio e longo prazo, o que enfraquece sua presença em fóruns decisivos.

“O Brasil não tem estratégia nenhuma, não há um pensamento de médio e longo prazo”, criticou.


Ausência pesa em temas onde o Brasil é referência

Mesmo sem poder decisório em grandes conflitos globais, especialistas lembram que o Brasil possui autoridade em temas estratégicos, como meio ambiente, transição energética e segurança alimentar.

“O Brasil tem o que dizer no mundo. Ele tem uma palavra forte em áreas que ele tem força”, afirmou Barbosa.

Segundo ele, justamente por isso, a ausência em Davos representa uma perda de visibilidade em debates nos quais o país poderia exercer protagonismo.


Cenário global exige presença ativa

O Fórum Econômico Mundial de 2026 ocorre em um contexto de reconfiguração das alianças globais, disputas comerciais, tensões militares e redefinição de blocos econômicos. A agenda inclui discussões sobre crescimento global, segurança, tecnologia, clima e geopolítica, temas que impactam diretamente economias emergentes como a brasileira.

Para analistas, ao optar por uma presença discreta, o Brasil abre mão de influência, reduz sua capacidade de diálogo direto com líderes globais e perde espaço em um momento decisivo para o reposicionamento internacional.


Relevância em queda preocupa mercado

A leitura predominante entre especialistas é que a agenda fraca em Davos funciona como um sinal negativo ao mercado internacional, indicando cautela, fragilidade econômica e falta de articulação estratégica.

Embora o governo priorize questões internas, analistas alertam que a ausência em fóruns globais pode custar caro no médio e longo prazo, especialmente em um cenário de competição intensa por capital, tecnologia e influência política.

A participação reduzida do Brasil em Davos, portanto, não é vista apenas como um detalhe logístico, mas como um símbolo de perda de protagonismo em um dos palcos mais relevantes da economia mundial.