Em depoimento à Polícia Federal, ex-banqueiro afirmou que substituiu ativos e negou prejuízos ao banco público; investigadores apontam R$ 12,2 bilhões em créditos negociados sem comprovação de existência.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro negou ter cometido fraude nas operações entre o Banco Master e o BRB, o Banco de Brasília, e atribuiu a crise enfrentada pela instituição pública à liquidação do Master e às investigações sobre o caso. As declarações foram feitas em depoimento à Polícia Federal em 15 de setembro, segundo reportagem divulgada pela CNN Brasil nesta sexta-feira (30).
Durante a oitiva, Vorcaro afirmou que não comercializou créditos inexistentes e sustentou que o BRB e os clientes dos bancos não perderam dinheiro. Ele também disse ser vítima de perseguição, contestou sua prisão e pediu o arquivamento do caso.
A Polícia Federal apresenta uma versão diferente sobre as operações. Segundo os investigadores, ao menos R$ 12,2 bilhões negociados entre as instituições correspondem a créditos comercializados sem comprovação de existência. Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas foram indiciados no inquérito.
Vorcaro afirma que BRB sofreu saques após liquidação do Master
Ao explicar sua versão sobre a crise do BRB, Vorcaro declarou que o banco público sofreu uma retirada de R$ 9 bilhões após a liquidação do Master e sua prisão.
Segundo ele, esses acontecimentos comprometeram a credibilidade da instituição, que mantinha uma parceria com o Master.
“O banco vive de credibilidade. Depois da liquidação e da minha prisão, foi sacado R$ 9 bilhões do BRB”, afirmou.
O ex-banqueiro negou que sua atuação tenha causado a crise. Em sua avaliação, as dificuldades decorreram da situação criada pela liquidação da instituição parceira e pela investigação policial.
Questionado pela delegada sobre laudos que apontariam irregularidades, Vorcaro voltou a negar prejuízos ao BRB e aos clientes. Ele apresentou essa alegada ausência de perdas como argumento para contestar a existência de fraude.
Ex-banqueiro diz que substituiu carteiras com problemas
Vorcaro reconheceu que houve problemas em carteiras de crédito relacionadas à empresa Tirreno, mas afirmou que a situação havia sido resolvida antes de o caso se tornar público, em novembro de 2025.
Segundo seu depoimento, as operações relacionadas a essas carteiras deixaram de ocorrer em maio. Ele declarou que, após tomar conhecimento dos problemas, utilizou ativos do Banco Master e de seu patrimônio pessoal para fazer substituições.
O ex-banqueiro afirmou ter agido de boa-fé com o BRB e sustentou que os ativos entregues superavam o valor pago pelo banco público.
“Quando fiquei sabendo do problema com a carteira, eu peguei ativos do banco e ativos próprios meus e substituí, em boa-fé com o BRB”, declarou.
A compra, a recompra e a substituição de créditos estão entre as operações examinadas pela Polícia Federal no inquérito.
Depoimento teve acusações de perseguição e críticas à investigação
Durante a oitiva, Vorcaro afirmou que as investigações partiram de uma interpretação equivocada de informações do Banco Central.
Ele acusou um agente de persegui-lo havia seis anos e declarou que teria sido criada uma “fantasia” sobre uma fraude de aproximadamente R$ 12 bilhões para justificar sua prisão.
O ex-banqueiro também disse que o caso passou a ser acompanhado por uma pressão nacional e afirmou que os integrantes da Polícia Federal estariam submetidos a essa situação.
Ao longo do depoimento, questionou se os investigadores teriam disposição para examinar as operações conforme a versão apresentada por ele. Também afirmou que integrantes do Banco Central, da PF e de outras instituições deveriam assumir suas responsabilidades.
Vorcaro declarou que continuava acreditando na Justiça e que estava disposto a assumir a própria responsabilidade, mas reiterou que não houve fraude nas negociações com o BRB.
Vorcaro pediu arquivamento e perícia independente
O ex-banqueiro afirmou estar preso injustamente e pediu que o caso fosse arquivado, alegando ausência de provas e de prejuízo ao banco público.
Ele também defendeu a contratação de uma empresa estrangeira para realizar uma perícia independente nos ativos negociados.
Segundo Vorcaro, essa análise poderia confirmar sua versão sobre os valores entregues ao BRB. Durante o depoimento, ele sustentou que operações sem lucro não deveriam ser tratadas como fraude.
O pedido de perícia foi apresentado por ele como uma forma de verificar os ativos envolvidos nas transações e os resultados financeiros dos negócios entre as instituições.
Imóveis de R$ 146 milhões foram abordados no depoimento
Vorcaro também foi questionado sobre imóveis avaliados em aproximadamente R$ 146 milhões, que teriam sido utilizados como compensação nas negociações entre o BRB e o Master.
Em sua versão, as propriedades seriam disponibilizadas ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, para moradia, caso a união entre os bancos fosse concretizada.
O ex-banqueiro afirmou que Costa havia sido convidado para ocupar um cargo de gestão na instituição resultante da operação e precisaria se mudar para São Paulo com a família.
Segundo Vorcaro, os imóveis localizados em Brasília e São Paulo não seriam presentes, mas cedidos em regime de comodato, sem transferência de propriedade.
Ele declarou ainda que Costa poderia comprar as propriedades posteriormente, dentro de um programa de bônus previsto para gestores do banco.
“Eu não prometi imóvel para ele. Prometi imóvel para ele morar, como parte do benefício de ser gestor do banco”, afirmou.
Em seu próprio depoimento, Paulo Henrique Costa declarou que o BRB não tinha conhecimento de que poderia haver fraude nas operações realizadas com o Master.
Polícia Federal indiciou 15 pessoas no caso Master
A Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas no inquérito sobre as operações entre o Banco Master e o BRB.
Os indiciamentos constam de um relatório parcial com mais de 700 páginas, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal na quarta-feira (28).
A PF também solicitou mais 60 dias de investigação para concluir perícias e realizar diligências complementares.
De acordo com a apuração policial, o BRB comprou aproximadamente R$ 17,5 bilhões em ativos e carteiras de crédito do Master entre julho de 2024 e outubro de 2025.
Desse total, os investigadores apontam que ao menos R$ 12,2 bilhões correspondiam a créditos comercializados sem comprovação de existência.
Investigadores atribuem a Vorcaro comando das operações
Segundo a Polícia Federal, créditos fictícios teriam sido usados para sustentar operações bilionárias e manter o fluxo de recursos em direção ao Banco Master.
O relatório descreve frentes interligadas que envolveriam compra, recompra e substituição de créditos, além de operações relacionadas a aumentos de capital do BRB e à tentativa de aquisição do Master pelo banco público de Brasília.
Vorcaro foi indiciado por gestão fraudulenta, indução a erro, falsidade em informações ou documentos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A PF o descreve como o principal responsável pelo comando, pela coordenação e pelas decisões da estrutura investigada.
Paulo Henrique Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa. Segundo os investigadores, ele atuava como articulador das operações dentro do BRB e utilizava as atribuições do cargo para assegurar a continuidade dos negócios estruturados por Vorcaro.




































































































































































































































