Segundo dia de debates em Nova York teve acusações contra Estados Unidos e Israel, críticas argentinas à ONU e retomada de contatos diplomáticos para tentar encerrar o conflito no Oriente Médio.
A guerra no Oriente Médio e as críticas à atuação das Nações Unidas marcaram o segundo dia de debates da Assembleia Geral da ONU, nesta quarta-feira (23), em Nova York. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, respondeu às ameaças feitas por Donald Trump na véspera, enquanto o argentino Javier Milei chamou a organização de “inútil” e cobrou providências sobre a disputa pelas Ilhas Malvinas.
Pezeshkian acusou Estados Unidos e Israel de terrorismo e de ataques contra civis, defendeu que a questão nuclear seja tratada fora do campo de batalha e vinculou a paz regional à justiça para os palestinos.
Apesar do confronto público, representantes americanos e iranianos retomaram contatos diplomáticos por meio de mediação, após meses de interrupção. As conversas realizadas à margem da assembleia buscam construir uma saída para a guerra, mas ainda não resultaram em um acordo anunciado.
Presidente do Irã responde às ameaças de Trump
Masoud Pezeshkian afirmou que alterou seu discurso depois de ouvir a participação de Donald Trump na terça-feira (22). Na ocasião, o presidente americano ameaçou “aniquilar o Irã” caso não houvesse um entendimento e acusou o governo iraniano de patrocinar o terrorismo.
Em resposta, Pezeshkian classificou Estados Unidos e Israel como os verdadeiros responsáveis por ações terroristas. O iraniano acusou os dois países de atingir civis e desrespeitar o direito internacional.
“Eles nos acusam de terrorismo, mas eles são os terroristas, alvejando civis e rompendo leis internacionais”, declarou.
O presidente também sustentou que as ações militares de seu país foram uma reação a ataques anteriores e afirmou que o Irã nunca teve civis como alvo. A declaração representa a versão apresentada pelo governo iraniano sobre sua atuação no conflito.
No início da fala de Pezeshkian, a comitiva americana se levantou no plenário. O gesto ocorreu em meio à escalada das acusações entre os dois governos.
Pezeshkian vincula paz no Oriente Médio à questão palestina
A situação dos palestinos ocupou parte central do pronunciamento iraniano. Pezeshkian afirmou que não haverá paz no Oriente Médio “sem justiça para a Palestina” e acusou Israel de promover mortes de civis na Faixa de Gaza.
Durante o discurso, o presidente citou o número de 85 mil civis mortos em Gaza. O total foi apresentado por ele como parte das acusações contra o governo israelense.
Pezeshkian também exibiu imagens para sustentar sua argumentação. Entre elas estavam um pôster do ex-líder supremo iraniano Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, no primeiro dia dos ataques americanos e israelenses, e fotografias de crianças de uma escola que, segundo a versão iraniana, teria sido atingida por bombas dos Estados Unidos.
Ao tratar das relações regionais, o presidente afirmou que Teerã não considera os vizinhos do Golfo Pérsico seus rivais, embora países da região tenham sido atingidos por ataques iranianos ao longo da guerra.
Irã diz que questão nuclear não será resolvida pela guerra
Outro ponto do pronunciamento foi a disputa sobre o programa nuclear iraniano. Pezeshkian declarou que “questões nucleares não serão resolvidas no campo de batalha”, defendendo uma solução fora da via militar.
O tema também está entre as principais exigências apresentadas por Washington nas negociações. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que qualquer entendimento precisa assegurar que o Irã jamais terá uma arma nuclear.
Em entrevista à NBC, Rubio disse estar aberto a uma reunião com representantes iranianos durante a Assembleia Geral. Ele ressaltou, porém, que não havia encontro marcado naquele momento.
As declarações mantêm o programa nuclear no centro do impasse diplomático, ao lado das condições militares e econômicas discutidas para interromper as hostilidades.
Estados Unidos e Irã retomam contatos com mediação do Catar
Enquanto os discursos expunham a distância entre os governos, os bastidores da Assembleia Geral registraram a retomada das negociações para o fim da guerra, após cerca de três meses de interrupção.
Trump afirmou que os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner participaram de uma rodada de conversas de aproximadamente três horas. O presidente classificou o diálogo como produtivo e manifestou expectativa de novos contatos em breve.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, confirmou negociações por intermédio de um mediador do Catar. Segundo ele, Teerã apresentou condições que incluem o encerramento dos confrontos em todas as frentes e a suspensão do que considera atos de agressão dos Estados Unidos.
Autoridades iranianas ouvidas pela Reuters negaram que tenha ocorrido uma reunião presencial entre Witkoff e o chanceler Abbas Araqchi, contrariando informações iniciais sobre um encontro direto.
Araqchi se reuniu com o primeiro-ministro do Catar, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, que atua na mediação entre os dois lados.
Estreito de Ormuz e bloqueio naval estão entre as exigências iranianas
As negociações também envolvem questões econômicas e de navegação. Segundo a agência estatal iraniana Irib, Teerã apresentou exigências como a suspensão imediata do bloqueio naval americano aos portos do país e a liberação de ativos iranianos congelados.
O governo iraniano também cobra o fim da guerra em todas as frentes ligadas aos grupos que chama de resistência.
Um alto funcionário iraniano afirmou à Reuters que o Estreito de Ormuz poderia ser reaberto em até sete dias, caso os Estados Unidos reduzam a pressão militar e suspendam o bloqueio aos portos iranianos.
A possibilidade foi apresentada de forma condicional e não representa uma decisão já acertada entre os países. Segundo a mesma fonte, a delegação iraniana em Nova York tem autorização para retomar relações diplomáticas com Washington.
Milei chama ONU de inútil e questiona atuação internacional
O presidente da Argentina, Javier Milei, também adotou um tom de confronto em sua participação nesta quarta-feira. Ele chamou a ONU de “inútil” e acusou a organização de falhar na defesa da segurança coletiva e dos direitos humanos.
Milei afirmou que a instituição passou a sustentar uma estrutura burocrática incapaz de impedir a violência e o terrorismo. Também criticou medidas e posicionamentos da organização contra Israel em razão dos ataques na Faixa de Gaza.
O argentino estendeu os ataques à Organização Mundial da Saúde (OMS), da qual retirou seu país. Ao comentar as recomendações de quarentena durante a pandemia, acusou a entidade de promover um “experimento global de controle social disfarçado de ciência”.
A caracterização foi feita pelo presidente argentino como parte de suas críticas aos organismos internacionais.
Disputa pelas Malvinas é usada para cobrar a ONU
Milei apresentou a disputa entre Argentina e Reino Unido pelas Ilhas Malvinas como exemplo do que considera falta de efetividade das Nações Unidas.
Segundo o presidente, o impasse coloca em questão a capacidade da organização de fazer valer suas próprias resoluções. Ele questionou a continuidade da disputa ao longo de décadas e afirmou que seu governo não ficará esperando uma resposta da comunidade internacional.
“Vamos tomar providências nesse assunto”, declarou Milei, sem detalhar, nos trechos apresentados do pronunciamento, quais medidas pretende adotar.
A comitiva do Reino Unido permaneceu no plenário e não demonstrou reação à fala do presidente argentino.
Milei leu o discurso em papel e também reafirmou a orientação externa de seu governo. Disse que a Argentina está alinhada “sem ambiguidades ao Ocidente”, citando expressamente Estados Unidos e Israel como parceiros com os quais compartilha valores e interesses estratégicos.
Retomada diplomática ocorre após fracasso de cessar-fogo
As conversas entre americanos e iranianos ocorrem após o fracasso de um acordo provisório de cessar-fogo em julho. Desde então, os países voltaram a trocar ataques.
A guerra começou em fevereiro, com uma ofensiva dos Estados Unidos e de Israel, e se aproxima de sete meses, com milhares de mortes, impactos sobre o abastecimento global de energia e desdobramentos em outros países do Oriente Médio.
Trump afirmou acreditar que uma solução diplomática poderá ser encontrada depois das eleições americanas de meio de mandato, previstas para novembro, mas não explicou a relação entre esse calendário e um possível acordo.
Do lado iraniano, a disposição para negociar convive com novas ameaças de retaliação. No domingo (20), o comando militar do país afirmou que responderia sem limitações contra bases e interesses americanos na região em caso de outra ofensiva sobre seu território.
Até o momento, a reabertura do canal diplomático não foi acompanhada do anúncio de um acordo para encerrar a guerra. As condições apresentadas pelos dois governos permanecem no centro das tratativas realizadas durante a Assembleia Geral.
