Presidente brasileiro será o primeiro chefe de Estado a falar nesta terça-feira (22), em Nova York. Defesa da soberania, negociações de paz e reforma do Conselho de Segurança estão entre os temas previstos.
O Debate Geral da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) começa nesta terça-feira (22), em Nova York, em meio a guerras, crises humanitárias e dificuldades de articulação entre as principais potências. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será o primeiro chefe de Estado a discursar, seguindo a tradição que reserva ao Brasil a abertura dos pronunciamentos nacionais.
A participação brasileira deve ter como principais temas a defesa da soberania, da democracia e da cooperação internacional, além da necessidade de fortalecer os mecanismos de negociação para solucionar conflitos. Também são esperadas cobranças por mudanças no Conselho de Segurança, órgão responsável por decisões relacionadas à paz e à segurança internacionais.
Lula chegou aos Estados Unidos no domingo (20) e dedicou parte da segunda-feira (21) à preparação do pronunciamento, com ajustes ao lado da equipe de assessoria internacional. A agenda também incluiu encontros com aliados.
Após o presidente brasileiro, está previsto o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representante do país anfitrião.
Assembleia Geral ocorre sob pressão por respostas às crises internacionais
O encontro reúne representantes dos 193 Estados-membros das Nações Unidas em um momento de questionamentos sobre a capacidade da organização de prevenir guerras e construir soluções para crises humanitárias.
As divergências entre potências dificultam a adoção de medidas conjuntas, especialmente quando os interesses dos integrantes permanentes do Conselho de Segurança estão envolvidos. Esse cenário reforça as discussões sobre a representatividade e o funcionamento das instituições internacionais.
Na avaliação do governo brasileiro, o enfraquecimento da cooperação entre os países produz consequências que vão além das relações diplomáticas. Segurança, saúde, comércio, meio ambiente e soberania nacional estão entre as áreas afetadas pela dificuldade de estabelecer respostas coletivas.
A expectativa é que Lula utilize o pronunciamento para defender o diálogo e apresentar a posição brasileira sobre os principais desafios da agenda internacional.
Lula deve defender soberania e negociações de paz
A defesa do multilateralismo deve ocupar uma posição central no discurso do presidente. O conceito se refere à atuação conjunta de diferentes países, por meio de acordos, negociações e instituições internacionais, para enfrentar problemas compartilhados.
A intenção é destacar que questões como guerras, emergência climática e crises sanitárias exigem cooperação. Nesse contexto, Lula deve reforçar a importância das negociações de paz e do respeito ao direito internacional humanitário.
Outro ponto previsto é a não interferência nos assuntos internos dos países. O presidente deve abordar a soberania como princípio das relações internacionais e criticar ações que, na avaliação brasileira, ameaçam a autonomia dos Estados.
A situação da América Latina também deve aparecer nessa discussão, especialmente diante das preocupações do governo com a estabilidade regional.
As posições antecipadas por auxiliares indicam os temas preparados para o pronunciamento. O conteúdo definitivo será conhecido durante a apresentação na tribuna.
Defesa da democracia deve incluir críticas à interferência externa
A expectativa é que Lula reserve parte da fala à defesa da democracia e da autonomia do processo eleitoral brasileiro.
Segundo interlocutores do governo, o presidente deve criticar o que considera tentativas externas de influenciar decisões políticas do país. A abordagem prevista é tratar do assunto dentro de uma discussão mais ampla sobre soberania, sem transformar as eleições brasileiras no tema principal do pronunciamento.
Para a diplomacia nacional, a preservação das instituições democráticas está relacionada ao respeito às decisões internas de cada sociedade e ao fortalecimento das regras de convivência entre os países.
O tema deve aparecer associado à defesa da cooperação internacional, com a argumentação de que o diálogo entre governos precisa respeitar a independência política dos participantes.
Reforma do Conselho de Segurança está entre as prioridades brasileiras
Uma das principais cobranças esperadas é a reforma do Conselho de Segurança da ONU, pauta defendida pelo Brasil para ampliar a representatividade do órgão.
Atualmente, o conselho possui cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — e dez integrantes eleitos para mandatos de dois anos.
Os membros permanentes têm poder de veto sobre resoluções substantivas. Na prática, um voto contrário de qualquer um deles pode impedir a aprovação de uma proposta, mesmo que ela tenha apoio suficiente dos demais integrantes.
Lula tem criticado as limitações desse modelo, sobretudo quando países com poder de veto estão envolvidos direta ou indiretamente em conflitos. Nessas situações, as divergências entre as potências podem bloquear iniciativas de resposta.
O presidente defende a ampliação do conselho, com maior participação de países como Brasil, Alemanha, Japão e África do Sul. O objetivo é aproximar a composição do órgão da realidade política internacional e ampliar a presença de regiões com pouca representação permanente.
Combate ao crime organizado e meio ambiente também devem entrar no discurso
O enfrentamento ao crime organizado é outro assunto previsto para a participação brasileira. A orientação é destacar as ações adotadas pelo país e a importância da cooperação entre governos.
A abordagem deve enfatizar a necessidade de articulação internacional, sem concentrar o pronunciamento em uma organização criminosa específica ou em episódios recentes.
Meio ambiente e inteligência artificial também aparecem entre os temas preparados pela equipe presidencial. A expectativa é que Lula apresente a visão brasileira sobre essas questões e defenda a construção de respostas compartilhadas.
A agenda ambiental deve integrar a discussão sobre os efeitos da redução da cooperação internacional. Já a inteligência artificial está entre os assuntos que devem compor a apresentação das prioridades brasileiras para o cenário global.
Por que o Brasil é o primeiro país a discursar na Assembleia Geral?
O Brasil ocupa tradicionalmente a primeira posição entre os países que discursam no Debate Geral. A prática se consolidou a partir de 1955, embora representantes brasileiros já tivessem aberto a sequência de pronunciamentos em edições anteriores.
A explicação mais difundida é que, nos primeiros anos da organização, o país se oferecia para falar primeiro quando outras delegações evitavam essa posição. Com o tempo, o gesto se transformou em uma tradição diplomática.
Os Estados Unidos costumam falar em segundo lugar, por sediarem o encontro. Antes dos pronunciamentos nacionais, ocorrem as intervenções institucionais da direção da Assembleia Geral e do secretário-geral da ONU.
A ordem teve algumas exceções. Em 1983 e 1984, os Estados Unidos discursaram antes do Brasil. Em 2016 e 2018, atrasos na chegada do presidente americano provocaram mudanças na segunda posição, ocupada por Chade e Equador, respectivamente.
O lugar reservado ao Brasil, portanto, resulta de uma prática histórica do protocolo das Nações Unidas.
Como funciona o encontro de líderes em Nova York
Apesar do nome, o Debate Geral não funciona como uma discussão direta entre os governantes, com perguntas e respostas a cada pronunciamento. Cada representante apresenta a posição de seu país sobre os assuntos que considera prioritários.
O evento permite que os governos exponham propostas, registrem críticas e indiquem suas posições sobre conflitos, economia, desenvolvimento e outros temas internacionais.
Além dos Estados-membros, representantes de observadores, como a Santa Sé e o Estado da Palestina, também podem discursar. A União Europeia participa com uma condição especial de observadora.
Depois das primeiras intervenções, a organização da lista considera fatores como o nível de representação das delegações. Chefes de Estado costumam ter prioridade, seguidos por outras autoridades.
Há uma orientação para que os discursos tenham aproximadamente 15 minutos, mas esse limite é voluntário e pode ser ultrapassado.
Escolha do próximo secretário-geral movimenta articulações
A sucessão de António Guterres no comando da ONU também faz parte das discussões diplomáticas deste ano.
O processo prevê uma recomendação do Conselho de Segurança e a posterior nomeação pela Assembleia Geral. Dessa forma, a escolha depende de articulação entre os integrantes dos dois órgãos.
O Brasil defende que o cargo seja ocupado por uma mulher latino-americana. O governo apoiava a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, que retirou sua candidatura após perder apoio em seu próprio país.
Mesmo com a desistência, a posição brasileira permanece favorável à escolha de uma representante da região. A discussão se soma às reivindicações por maior diversidade e representatividade nos principais espaços de decisão das Nações Unidas.
Assembleia Geral tem histórico de discursos que marcaram a política mundial
A tribuna da ONU já foi palco de pronunciamentos que se tornaram símbolos de diferentes períodos das relações internacionais.
Em 1960, Fidel Castro discursou por mais de quatro horas e meia, em uma das participações mais conhecidas pela duração. No mesmo ano, Nikita Khrushchev protagonizou um episódio associado à história de um sapato batido sobre a mesa, narrativa que permanece cercada de dúvidas e não possui registro em vídeo do suposto gesto.
Em 2006, Hugo Chávez comparou o então presidente americano George W. Bush ao diabo, durante um período de forte tensão entre Venezuela e Estados Unidos.
Já em 2012, Benjamin Netanyahu utilizou um cartaz com o desenho de uma bomba para apresentar suas alegações sobre os riscos do programa nuclear iraniano.
Em 2017, Donald Trump adotou um tom de ameaça contra a Coreia do Norte e chamou Kim Jong-un de “homem-foguete”.
O histórico mostra como o encontro se tornou um espaço de exposição das divergências internacionais. Nesta edição, a atenção se volta às propostas dos líderes para enfrentar as crises em curso e à capacidade de transformar os pronunciamentos em iniciativas de cooperação.
