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Voto feminino pode ter sido decisivo para a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro em 2026, aponta análise

Estudo da FGV identifica ampliação da diferença entre homens e mulheres na preferência pelo presidente; entre eleitoras de 18 a 20 anos, a distância estimada chega a 25 pontos percentuais

O eleitorado feminino pode ter desempenhado um papel fundamental na vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais de 2026. Uma análise dos resultados das urnas, realizada por um pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que a vantagem de Lula foi significativamente maior nas seções eleitorais com maior presença de mulheres.

O levantamento foi conduzido pelo professor Marco Antonio Faganello, do Centro de Política e Economia do Setor Público da FGV (Cepesp). A análise identificou uma tendência nacional de maior votação proporcional para Lula em locais onde o eleitorado feminino era mais numeroso.

Os dados também indicam que a diferença entre homens e mulheres na preferência pelo atual presidente aumentou em comparação com as eleições de 2022.

Diferença entre homens e mulheres aumentou

Segundo as estimativas do pesquisador, a diferença na preferência por Lula entre o eleitorado feminino e masculino chegou a 9,8 pontos percentuais no segundo turno de 2026. Na disputa presidencial de 2022, quando Lula enfrentou Jair Bolsonaro (PL), essa diferença havia sido estimada em 6,4 pontos percentuais.

O resultado chama a atenção porque demonstra um distanciamento ainda maior entre os comportamentos eleitorais de homens e mulheres.

O Brasil possui aproximadamente 158 milhões de eleitores aptos a votar. Desse total, 83,8 milhões são mulheres, o equivalente a 52,8% do eleitorado nacional, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No segundo turno de 2026, Lula terminou a disputa com 4,4 milhões de votos a mais que Flávio Bolsonaro.

Entre as mulheres jovens, diferença chega a 25 pontos

Um dos dados mais expressivos da análise aparece quando os resultados são cruzados com a faixa etária dos eleitores.

Entre jovens de 18 a 20 anos, a preferência estimada por Lula entre as mulheres superou a dos homens em 25 pontos percentuais.

Conforme a idade aumenta, essa diferença diminui gradativamente, chegando a praticamente zero entre eleitores com 70 anos ou mais.

O levantamento indica, portanto, que o gênero e a idade podem ter influenciado de maneira significativa o comportamento eleitoral em diferentes segmentos da população.

Bolsa Família e políticas sociais podem ter influenciado

Mas o que explica essa diferença?

Para a professora Débora Thomé, pesquisadora da FGV especializada em voto e representação feminina na política brasileira, alguns fatores podem ajudar a compreender o resultado.

Um deles seria a associação entre Lula e a manutenção de programas sociais, especialmente o Bolsa Família.

Segundo a pesquisadora, a preocupação com a continuidade de benefícios sociais pode ter influenciado principalmente as mulheres de baixa renda, que representam uma parcela importante das famílias atendidas pelas políticas públicas.

Atualmente, das 19,3 milhões de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família, aproximadamente 16,1 milhões são chefiadas por mulheres, o equivalente a 83,4%, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

Outro ponto levantado pela professora é a preocupação com possíveis cortes em serviços públicos e políticas de assistência. O discurso de redução de gastos públicos associado à campanha de Flávio Bolsonaro pode ter provocado receio em parte do eleitorado feminino, especialmente entre as mulheres que dependem de programas sociais.

Comportamento nos debates também entrou na análise

A postura dos candidatos durante os debates do segundo turno também foi apontada como um possível fator de influência.

A professora Débora Thomé avalia que determinados comportamentos de Flávio Bolsonaro durante os confrontos com Lula podem ter contribuído para aumentar a resistência de parte das eleitoras.

Entre os episódios mencionados estão os gestos e expressões utilizados pelo candidato durante o debate da Band e a declaração em que chamou Lula de “nove dedos”, durante o confronto na TV Globo.

Na avaliação da pesquisadora, comportamentos percebidos como agressivos podem ter prejudicado a aproximação do candidato com parte do eleitorado feminino.

A composição da chapa de Flávio Bolsonaro, formada por homens, também foi mencionada como um possível fator. Antes da definição do vice, havia expectativa de que uma mulher integrasse a candidatura, o que poderia ajudar a reduzir a rejeição entre as eleitoras.

Pesquisa não identifica individualmente o voto de cada eleitor

Apesar dos resultados, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o voto é secreto e os dados divulgados pelo TSE não permitem identificar como cada homem ou mulher votou individualmente.

A análise utiliza um método estatístico conhecido como regressão ecológica, que compara os resultados de diferentes seções eleitorais e o perfil dos eleitores inscritos em cada uma delas.

O pesquisador comparou, inclusive, urnas instaladas em um mesmo local de votação, como escolas, para reduzir diferenças relacionadas às características socioeconômicas dos eleitores.

Assim, os números representam estimativas estatísticas sobre tendências de comportamento, e não a contagem individual dos votos por gênero.

Mesmo com essa limitação, o estudo aponta um padrão observado em diferentes regiões do país: quanto maior a participação proporcional de mulheres em uma seção eleitoral, maior foi a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro.

O resultado reforça a importância do eleitorado feminino nas disputas presidenciais e coloca em evidência um dos fatores que podem ter contribuído para definir o cenário político brasileiro em 2026.

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