Sistemas teriam sido empregados no conflito com o Irã após testes na fronteira com o México; tecnologia concentra energia sobre os alvos, mas enfrenta limitações de clima e alcance operacional.
Os Estados Unidos estão utilizando armas a laser para interceptar drones e mísseis de cruzeiro na região do Estreito de Ormuz, segundo uma reportagem do jornal americano New York Post que cita fontes do Departamento de Guerra. Os equipamentos estariam sendo empregados no conflito com o Irã após experiências na fronteira sul dos EUA, contra drones associados a grupos mexicanos do narcotráfico.
A tecnologia utiliza feixes de luz concentrados para aquecer e danificar componentes dos alvos. Dependendo da potência, do ponto atingido e do tempo de exposição, o sistema pode comprometer sensores ou provocar danos à estrutura de um drone.
O uso operacional relatado representa uma nova etapa de um desenvolvimento militar que, conforme a publicação, se estende há cerca de cinco décadas. Apesar dos avanços, essas armas ainda enfrentam obstáculos como elevado consumo de energia, interferência de condições atmosféricas e dificuldade para responder a ataques simultâneos.
Como funcionam as armas a laser usadas contra drones
Os sistemas recebem energia de geradores ou baterias e a convertem em um feixe concentrado de luz. Ao permanecer direcionado sobre uma superfície, o laser transfere energia e eleva a temperatura do material, podendo danificar partes importantes do equipamento.
Nos sistemas descritos na reportagem, o feixe opera na faixa do infravermelho e não é visível a olho nu. O efeito destrutivo depende de manter a energia concentrada no alvo durante determinado intervalo.
Por isso, a interceptação não deve ser entendida como um disparo que necessariamente destrói o objeto de maneira instantânea. Existe um tempo de permanência do feixe sobre o alvo, que pode durar vários segundos até produzir o dano necessário.
Mark Neice, presidente da Directed Energy Consultants, empresa que colabora com os militares, explicou que a tecnologia permite escolher pontos específicos de um drone. A finalidade pode variar entre comprometer os sensores e causar danos capazes de derrubar o aparelho.
Uso em Ormuz teria sido precedido por operações na fronteira
Antes do emprego relatado no Oriente Médio, as armas teriam sido utilizadas na fronteira entre os Estados Unidos e o México, em ações contra drones ligados ao narcotráfico.
Segundo a reportagem, pelo menos 11 drones foram abatidos nesse contexto. O pesquisador Brent Ziarnick, do American Foreign Policy Council, avaliou que os resultados indicam eficácia dos equipamentos nessas operações.
As informações sobre o uso em Ormuz foram atribuídas pelo jornal a fontes do Departamento de Guerra. O relato menciona drones e mísseis de cruzeiro, mas não apresenta um balanço detalhado das interceptações na região.
Os especialistas ouvidos também afirmaram que, até onde têm conhecimento, os sistemas citados não foram empregados contra pessoas. Essa avaliação se limita às informações disponíveis a eles sobre as operações.
Sistema HELIOS reúne laser de alta energia e vigilância
Entre os equipamentos mencionados está o HELIOS, sistema que combina laser de alta energia, recursos ópticos e vigilância. A potência descrita é de 60 quilowatts.
O porte e a necessidade de alimentação elétrica ajudam a explicar a instalação desse tipo de equipamento em plataformas maiores, como navios. O tamanho e o peso ainda dificultam sua transformação em uma arma individual transportada por soldados.
A ideia de militares carregarem sistemas semelhantes em mochilas, portanto, permanece distante da configuração apresentada na reportagem. O emprego atual depende de estruturas capazes de acomodar o equipamento e atender às suas exigências de energia.
A publicação também cita o Sistema de Arma a Laser Compacto, conhecido pela sigla CLWS, da Boeing. Segundo anúncio da empresa mencionado no texto, o equipamento pode destruir drones do Grupo 3, categoria que inclui aparelhos de até aproximadamente 589 quilos.
Controles de Xbox são adaptados para operar os equipamentos
Uma característica dos sistemas apresentados é o uso de controles de Xbox reconfigurados para a operação militar. A adaptação aproveita um formato familiar para comandar o equipamento.
Jared Keller, responsável pelo boletim especializado Laser Wars, afirmou que a escolha utiliza soluções de controle já desenvolvidas pela indústria de videogames, em vez de criar uma interface inteiramente nova.
Keller também relatou que Pete Hegseth teria participado de uma demonstração em junho, no campo de testes de White Sands, no Novo México. Segundo ele, Hegseth conseguiu operar um controlador e derrubar um drone após poucos minutos de treinamento.
O episódio foi apresentado como exemplo da facilidade de uso da interface, embora a operação do sistema completo envolva outras exigências técnicas além do controle manual.
Neblina, poeira e fumaça prejudicam o desempenho
Apesar do potencial militar, as armas a laser não funcionam com a mesma eficiência em todas as condições. Neblina, poeira e fumaça podem prejudicar a propagação do feixe e reduzir a energia que chega ao alvo.
A necessidade de manter o laser direcionado por alguns segundos também impõe dificuldades diante de enxames de drones, quando vários aparelhos se aproximam ao mesmo tempo.
Outro desafio é o consumo elevado de eletricidade. Embora esses sistemas não dependam de projéteis convencionais para cada disparo, sua capacidade de continuar operando está vinculada ao fornecimento de energia e às condições de funcionamento do equipamento.
A reportagem ainda cita dificuldades para atingir materiais com revestimentos resistentes ao laser. O desempenho, portanto, depende tanto do ambiente quanto das características do objeto que se pretende interceptar.
Militares americanos testam lasers há mais de uma década
Os Estados Unidos divulgam testes militares com armas a laser há mais de dez anos. Em 2014, a Marinha instalou um equipamento de 30 quilowatts no USS Ponce, navio de transporte anfíbio.
O sistema passou por uma série de avaliações e foi autorizado para uso defensivo, conforme o histórico apresentado na reportagem.
Em 2016, o Exército informou ter instalado um laser de 10 quilowatts em um caminhão tático pesado. Durante um exercício realizado em abril daquele ano, em Fort Sill, no estado de Oklahoma, o equipamento teria derrubado vários veículos aéreos não tripulados.
Já em fevereiro e março de 2017, testes em White Sands utilizaram um laser de 5 quilowatts montado em um veículo Stryker. O sistema também foi empregado para abater drones durante uma avaliação militar.
O uso agora relatado no Estreito de Ormuz amplia o debate sobre a passagem desses equipamentos dos campos de teste para operações reais. Os resultados descritos indicam possibilidades de emprego, mas as limitações de energia, condições atmosféricas e resposta a múltiplos alvos continuam centrais para avaliar sua eficácia.
