Search
Close this search box.

Pix vira alvo de críticas nos EUA e reacende disputa com gigantes dos cartões

Relatório do governo americano aponta suposta vantagem do sistema brasileiro e levanta preocupações sobre concorrência no setor de pagamentos digitais


Pix entra no radar dos Estados Unidos em relatório oficial

O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, voltou ao centro de críticas do governo dos Estados Unidos. Um relatório divulgado pela Casa Branca afirma que o modelo criado e operado pelo Banco Central do Brasil pode gerar uma “desvantagem competitiva” para empresas americanas, especialmente gigantes do setor como Visa e Mastercard.

O documento integra o Relatório de Estimativa Nacional de Comércio de 2026, elaborado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, e analisa barreiras comerciais enfrentadas por empresas americanas ao redor do mundo.

Segundo o texto, há preocupação de que o Banco Central brasileiro possa favorecer o Pix por ser simultaneamente criador, operador e regulador do sistema, o que, na visão de stakeholders norte-americanos, poderia afetar a concorrência no setor de pagamentos eletrônicos.


Obrigatoriedade do Pix e impacto no mercado

Outro ponto destacado no relatório é a obrigatoriedade de adesão ao Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas. Para o governo americano, essa exigência pode limitar a atuação de empresas estrangeiras no mercado brasileiro.

Na prática, o Pix se consolidou como um dos meios de pagamento mais utilizados no país, com forte adesão popular e empresarial. Sua proposta de transferências instantâneas e gratuitas para pessoas físicas ampliou o acesso a serviços financeiros e reduziu custos operacionais.

Esse avanço acelerado, no entanto, também intensificou o debate internacional sobre possíveis assimetrias regulatórias e competitivas.


Histórico de críticas no atual governo Trump

Essa não é a primeira vez que o tema aparece na agenda internacional. Ainda em 2025, já durante o governo de Donald Trump, o sistema brasileiro entrou no radar das autoridades americanas.

Na ocasião, o Pix não foi citado nominalmente, mas houve referência a “serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo Estado”, considerados potencialmente prejudiciais à livre concorrência.

A leitura de autoridades americanas é de que o Brasil poderia estar adotando práticas consideradas “desleais” ao favorecer soluções nacionais em detrimento de empresas globais.


Outros pontos de tensão entre Brasil e EUA

Além do Pix, o relatório aborda uma série de temas que, na avaliação dos Estados Unidos, impactam negativamente empresas americanas no Brasil.


Mineração ilegal e concorrência desleal

O documento aponta preocupação com a mineração ilegal de ouro no país, estimando que cerca de 28% da atividade total seja irregular. Segundo o relatório, isso cria um ambiente de concorrência desigual, já que empresas que seguem padrões ambientais e trabalhistas enfrentam desvantagens.


Exploração ilegal de madeira na Amazônia

Outro destaque é a exploração ilegal de madeira, especialmente na Amazônia. O texto sugere que aproximadamente metade da madeira produzida no Brasil tenha origem irregular, número que pode chegar a 90% na região amazônica.

Espécies de alto valor comercial, como ipê e mogno, são citadas como as mais afetadas. O relatório associa o problema a falhas de fiscalização, corrupção e expansão agrícola.


Legislação trabalhista e trabalho forçado

O governo americano também critica a ausência de uma legislação mais rígida que proíba a importação de produtos associados ao trabalho forçado. Para os EUA, isso gera vulnerabilidades e afeta a competitividade de empresas que seguem normas internacionais.

A crítica se insere em um debate mais amplo sobre padrões globais de produção e responsabilidade social corporativa.


Regulação digital e impacto em empresas estrangeiras

O chamado PL dos Mercados Digitais, ainda em discussão no Congresso brasileiro, também é visto com cautela. O relatório indica que a proposta pode afetar de forma desproporcional empresas estrangeiras, com previsão de multas que podem chegar a 20% do faturamento global.

Além disso, há críticas ao processo de implementação da Lei Geral de Proteção de Dados, especialmente no que diz respeito à exigência de contratos atualizados e nomeação de encarregados de dados por empresas internacionais.


Setor de telecomunicações e satélites

O relatório menciona ainda discussões regulatórias conduzidas pela Anatel sobre serviços digitais e plataformas, incluindo possíveis obrigações financeiras.

No setor de satélites, o governo americano critica o modelo brasileiro, que impõe taxas mais elevadas e restrições operacionais a empresas estrangeiras, limitando o tempo de exploração e exigindo renovações periódicas.


Debate sobre soberania digital e competitividade

A inclusão do Pix no relatório reforça um debate mais amplo sobre soberania digital e regulação econômica. Enquanto o Brasil aposta em soluções próprias para ampliar a inclusão financeira e reduzir custos, os Estados Unidos defendem maior equilíbrio competitivo para empresas globais.

O embate evidencia uma disputa crescente entre inovação estatal e interesses privados internacionais no setor financeiro.

Veja também