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‘Eu vou tomar banho, irmão’: câmeras corporais revelam tensão entre PMs e tenente-coronel após morte da soldado Gisele em SP

Imagens mostram confronto entre hierarquia e protocolo na cena do crime e levantam dúvidas sobre versão de suicídio no caso de Gisele Alves Santana


Gravações de câmeras corporais da Polícia Militar de São Paulo revelam um embate direto entre policiais de diferentes patentes no apartamento onde a soldado Gisele Alves Santana foi baleada, no bairro do Brás, região central da São Paulo.

As imagens, registradas no dia 18 de fevereiro, mostram o momento em que o marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, insiste em tomar banho e circular pelo imóvel, contrariando orientações para preservar a cena do crime.

O material passou a ser considerado peça-chave na investigação, que questiona a versão de suicídio apresentada pelo oficial.


Confronto entre hierarquia e preservação da cena

Logo após o ocorrido, policiais de menor patente tentam seguir o protocolo padrão: preservar o local para a perícia. No entanto, a presença de um oficial de alta patente cria um cenário de tensão.

Às 9h18, Geraldo Leite Rosa Neto afirma que pretende tomar banho antes de ir à delegacia. Os policiais orientam que ele apenas se vista, evitando qualquer alteração no ambiente.

A recomendação, no entanto, é ignorada.

Tenente-Coronel contrariou orientações dos policias militares e tomou banho  • Reprodução/Inquérito policial

Diálogo registrado pela câmera corporal

Os vídeos mostram o momento exato do embate verbal entre os agentes:

Cabo: “O senhor não saiu do banho agora? O senhor falou que estava tomando banho.”

Tenente-coronel: “Irmão, eu entrei no banho (ligou o chuveiro) eu tava aqui tomando banho, daí eu escutei o barulho e eu abri a porta, quando abri eu vi minha esposa, peguei essa bermuda que tava aqui em cima, vesti a cueca e a bermuda, que eu não cheguei a tomar banho, eu nem fiz a barba ainda ó, a barba eu faço durante o banho, fazia um minuto que eu tava embaixo do chuveiro, irmão.”

Cabo: “É que o senhor sabe da burocracia que é né, você sabe da burocracia que é na PM, então quanto mais rápido agilizar, se o senhor puder só colocar uma camiseta.”

Tenente-coronel: “Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que eu tô falando. Eu vou tomar banho, irmão.”

Cabo: “O senhor não quer colocar uma camiseta e um short rapidinho?”

Tenente-coronel: “Não, eu não vou, eu não tô bem para ir assim, eu vou tomar um banho.”

Desembargador, PM e tenente-coronel aparecem em imagem de body cam de cabo — Foto: Reprodução/Inquérito policial

Temor de destruição de provas

Nos bastidores, outros áudios captados revelam a preocupação dos policiais com a possível perda de vestígios.

Cabo (para um capitão): “O cara vai lavar a mão, caralho.”
Cabo: “Ele vai fazer residuográfico antes, né?”

Tenente: “Depende do que o perito falar, eu não vi nada.”

Cabo: “Se tomar banho vai perder tudo os baguio [vestígios] da mão, e as conversas dele tá estranha… porque se fosse um paisano a gente já arrasta pra perto…”

Cabo: “Vai deixar ele tomar banho e tudo?”

A preocupação era objetiva: o banho poderia eliminar resíduos de pólvora nas mãos, elemento importante em casos de disparo de arma de fogo.


Interferência na cena do crime levanta suspeitas

Após insistir, Geraldo Leite Rosa Neto entra no banheiro e, posteriormente, retorna já vestido.

Para os investigadores, esse momento representa um possível comprometimento de provas. O exame residuográfico realizado depois não identificou vestígios de pólvora nas mãos do oficial.

Esse ponto enfraquece a versão inicial de suicídio, já que o comportamento registrado entra em conflito com a narrativa apresentada.


Cronologia reforça dúvidas da investigação

O inquérito aponta ainda uma série de movimentações incomuns ao longo do dia:

9h07: chegada de autoridades ao local e tentativa de acesso ao apartamento
9h37: um coronel determina que apenas ele, o tenente-coronel e um desembargador permaneçam no local
18h: policiais retornam ao imóvel e realizam limpeza
19h09: nova entrada com seguranças do condomínio
21h36: Geraldo Leite Rosa Neto retorna ao apartamento acompanhado
Após isso: saídas com roupas e novos acessos ao imóvel até a noite

A sequência de ações reforça a suspeita de interferência na preservação da cena.


Caso é tratado como feminicídio

Geraldo Leite Rosa Neto está preso preventivamente e se tornou réu por feminicídio e fraude processual.

A investigação conduzida pelas autoridades considera que houve tentativa de simular suicídio, com base no conjunto de provas, incluindo vídeos, áudios e laudos periciais.


Defesa nega acusações

A defesa do tenente-coronel não foi localizada para comentar os novos elementos do caso. Em manifestações anteriores, o advogado afirmou que o cliente é inocente e sustenta a versão de suicídio.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que eventuais irregularidades na conduta de agentes serão apuradas.


Imagens fortalecem investigação

Para os investigadores, o material das câmeras corporais vai além de um registro visual.

As gravações mostram, em tempo real, o conflito entre hierarquia e protocolo, além de evidenciarem comportamentos que podem ter impactado diretamente a produção de provas.

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