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“Macho alfa” e “fêmea beta”: o que dizem as mensagens do Tenente-Coronel Neto acusado de feminicídio

Conversas entre tenente-coronel e policial militar expõem relação marcada por abuso, ciúmes e imposição de submissão


Conteúdo de mensagens reforça acusação de feminicídio

As investigações sobre a morte da policial militar Gisele Alves ganharam novos desdobramentos com a divulgação de mensagens atribuídas ao marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto.

O conteúdo revela um padrão de comportamento considerado misógino, controlador e abusivo, que, segundo a acusação, ajuda a explicar o contexto do crime ocorrido em fevereiro deste ano, no bairro do Brás, na região central de São Paulo.

O oficial foi preso, tornou-se réu e responde por feminicídio e fraude processual.


Acusado se definia como “macho alfa” e exigia submissão

Nas mensagens obtidas pela investigação, o tenente-coronel se autodenominava “macho alfa” e afirmava que a esposa deveria ser uma “fêmea beta obediente e submissa”.

As conversas indicam a imposição de regras rígidas dentro do relacionamento, incluindo proibições sobre comportamentos cotidianos da vítima.

Entre as exigências, ele determinava que a esposa não cumprimentasse outros homens com abraços ou beijos no rosto e restringia sua forma de se vestir.

Frases como “lugar de mulher é em casa cuidando do marido” e “são as minhas regras e do meu jeito” aparecem nos diálogos analisados pela polícia.

Tenente-coronel Geraldo Neto se definiu como ‘macho alfa’ e obrigava esposa ser ‘fêmea beta obediente e submissa’ — Foto: Reprodução

Relação era marcada por controle psicológico e financeiro

De acordo com o Ministério Público de São Paulo, o relacionamento entre o casal era permeado por abuso psicológico, controle financeiro e ciúmes excessivos.

O acusado condicionava a relação a uma lógica de troca, alegando ser o provedor da casa e cobrando da vítima “carinho, atenção, amor e sexo” como contrapartida.

Em outras mensagens, ele reforça uma visão de superioridade, descrevendo a si mesmo como “rei”, “soberano” e “provedor”, enquanto exigia submissão total da companheira.


Desejo de separação teria motivado o crime

A investigação aponta que Gisele Alves já manifestava o desejo de se separar dias antes do crime.

Em uma das conversas, ela afirma estar “praticamente solteira”, ao que o marido responde de forma categórica: “Jamais! Nunca será!”.

Para o Ministério Público, a recusa em aceitar o fim do relacionamento foi determinante para o assassinato, caracterizado como feminicídio — crime motivado por razões de gênero.


Perícia e mensagens contradizem versão apresentada pelo acusado

Segundo a Polícia Civil de São Paulo, a análise dos celulares foi essencial para traçar o perfil do investigado e identificar contradições entre sua versão pública e os fatos.

O delegado responsável pelo caso afirmou que o comportamento descrito nas mensagens é oposto ao apresentado pelo acusado em depoimentos e à imprensa.

Além disso, laudos periciais indicam que a vítima não teve chance de defesa e que houve tentativa de simular suicídio após o crime.


Acusação inclui tentativa de forjar cena do crime

De acordo com a denúncia, o tenente-coronel teria alterado a cena após o disparo, posicionando a arma na mão da vítima para simular um suicídio.

Há ainda indícios de que ele tentou eliminar vestígios, incluindo a realização de higiene pessoal após o ocorrido.

Esses elementos sustentam a acusação de fraude processual, que se soma ao crime de feminicídio.


Caso deve ser julgado pelo Tribunal do Júri

Embora haja discussão inicial entre a Justiça Militar e a Justiça comum, a tendência é que o caso seja conduzido pela Justiça comum.

Isso ocorre porque o feminicídio é considerado crime doloso contra a vida, o que o torna competência do Tribunal do Júri.

Nesse formato, sete jurados serão responsáveis por decidir pela condenação ou absolvição do acusado.


Promotoria pede indenização à família da vítima

O Ministério Público de São Paulo também solicitou que, em caso de condenação, seja fixada uma indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.

A denúncia classifica o crime como cometido por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa, agravantes que podem aumentar a pena do acusado.


Defesa contesta prisões e alega exposição indevida

A defesa do tenente-coronel afirma que houve irregularidades nas decisões judiciais que determinaram sua prisão e questiona a atuação simultânea das Justiças Militar e comum.

Os advogados também criticam a divulgação de informações e mensagens privadas, alegando violação de direitos fundamentais como intimidade, honra e imagem.

Apesar disso, reiteram que o acusado tem colaborado com as investigações e aguardam a completa elucidação dos fatos.

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