Censo Escolar aponta redução de mais de 1 milhão de matrículas no país; queda atinge principalmente o ensino médio, enquanto tempo integral e ensino técnico avançam
Dados do Censo Escolar 2025 revelam retração histórica
O Brasil perdeu mais de 1 milhão de matrículas na educação básica entre 2024 e 2025, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O total de estudantes caiu de 47,08 milhões para 46,01 milhões em apenas um ano, configurando uma das maiores retrações já registradas na série histórica recente.
A redução supera inclusive o impacto observado no período mais crítico da pandemia de Covid-19. O levantamento considera todas as etapas da educação básica — da creche ao ensino médio, incluindo Educação de Jovens e Adultos (EJA) e ensino técnico — e traça um panorama que preocupa gestores públicos e especialistas.
De acordo com o ministro da Educação, Camilo Santana, a queda pode ser explicada principalmente pela redução da população em idade escolar e pela diminuição das taxas de repetência, o que altera o fluxo de alunos nas séries. Ainda assim, os números indicam uma mudança estrutural no sistema educacional brasileiro.
Ensino médio atinge o menor número de matrículas do século
O dado mais alarmante do Censo Escolar 2025 está no ensino médio. O país alcançou o menor patamar de matrículas do século XXI nessa etapa de ensino.
Em 2024, o ensino médio contabilizava 7,79 milhões de alunos. Em 2025, o número caiu para 7,37 milhões — uma retração de 5,39%. A rede pública foi a mais impactada, com redução superior a 6%, enquanto a rede privada apresentou leve crescimento inferior a 1%.
Historicamente, o ensino médio brasileiro atingiu seu ápice em 2004, quando registrou mais de 9 milhões de matrículas. Desde então, a tendência tem sido de declínio gradual, agora intensificado. Especialistas apontam que fatores demográficos, evasão escolar e mudanças no mercado de trabalho contribuem para o cenário.
São Paulo concentra a maior queda do país
Entre as unidades federativas, São Paulo lidera a retração no ensino médio, tanto em números absolutos quanto percentuais. O estado perdeu cerca de 252 mil estudantes em apenas um ano, o equivalente a uma queda de 13,6%.
A redução expressiva impacta diretamente o panorama nacional, dado o peso demográfico paulista. Apenas três unidades da federação registraram crescimento no período: Amapá, Distrito Federal e Pernambuco. Nos demais estados, houve diminuição no total de alunos matriculados.
Educação infantil não atinge metas e também registra queda
A retração não se limitou ao ensino médio. A educação infantil apresentou diminuição de mais de 200 mil matrículas, puxada principalmente pela queda na pré-escola. Além da redução no número de alunos, houve fechamento de unidades de ensino públicas e privadas nessa etapa.
O Brasil também não atingiu as metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação (PNE). O acesso à creche permaneceu abaixo do objetivo de 50%, enquanto a universalização da pré-escola ainda não foi alcançada. Mesmo com a queda demográfica, especialistas defendem que o país deveria ampliar o atendimento para cumprir as metas previstas.
Educação de Jovens e Adultos recua
A Educação de Jovens e Adultos também apresentou retração significativa. O número de matrículas caiu quase 6%, com destaque para a redução no ensino médio da modalidade. A diminuição ocorre mesmo com a ampliação da oferta em algumas redes, indicando desinteresse ou dificuldades de permanência dos estudantes.
Ensino técnico integrado e tempo integral são exceções positivas
Apesar do cenário de queda geral, o Censo Escolar 2025 trouxe dois indicadores considerados positivos. O primeiro é o crescimento do ensino técnico integrado ao ensino médio. A modalidade registrou aumento superior a 200 mil matrículas em relação ao ano anterior, impulsionada principalmente pelas redes estaduais e pelos institutos federais.
O segundo avanço foi na educação em tempo integral. Houve ampliação do percentual de alunos com jornada mínima de 35 horas semanais, especialmente na rede pública. A expansão é vista como estratégia para reduzir evasão, melhorar desempenho acadêmico e ampliar oportunidades formativas.
Contratos temporários seguem elevados
Outro dado relevante diz respeito ao corpo docente. Mais de 40% dos professores da educação básica atuam com contratos temporários, especialmente nas redes estaduais. A proporção elevada levanta debates sobre estabilidade profissional e qualidade do ensino.
Embora a maioria dos docentes possua licenciatura, o percentual apresentou leve queda em relação ao ano anterior. A presença de mestres e doutores na educação básica ainda é reduzida, concentrando-se em segmentos específicos.
Retrato de transição demográfica e desafio estrutural
O Censo Escolar 2025 confirma que o sistema educacional brasileiro atravessa um momento de transformação. A queda nas matrículas reflete mudanças demográficas profundas, mas também evidencia desafios estruturais persistentes, especialmente no ensino médio.
Ao mesmo tempo, os avanços no ensino técnico e na educação integral indicam caminhos possíveis para reestruturação do modelo educacional. O grande desafio para os próximos anos será equilibrar qualidade e acesso, garantindo que a redução no número de estudantes não represente perda de oportunidades, mas sim reorganização eficiente do sistema.
O cenário impõe aos gestores públicos a necessidade de políticas focadas em permanência escolar, modernização curricular e valorização docente, sob risco de aprofundamento das desigualdades educacionais no país.



