Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra avanço da sensação de medo no país, impacto da violência política e expansão das facções criminosas até cidades do interior
A sensação de insegurança segue moldando o cotidiano dos brasileiros em 2026. Um novo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha revela que o medo da violência deixou de ser apenas uma preocupação pontual e passou a interferir diretamente na vida social, política e econômica da população.
Os dados fazem parte do estudo “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, divulgado neste mês, e mostram um país marcado pela convivência simultânea com o avanço do crime organizado, o crescimento da violência política e mudanças profundas nos hábitos da população.
Segundo a pesquisa, 57% dos brasileiros alteraram a rotina nos últimos 12 meses por medo da violência, enquanto 6 em cada 10 pessoas afirmam temer agressões físicas motivadas por posicionamentos políticos.
Medo de violência política alcança quase 100 milhões de brasileiros
O levantamento mostra que 59,6% dos brasileiros com mais de 16 anos têm medo de sofrer agressões físicas por causa de suas posições políticas ou partidárias. Em números absolutos, isso representa cerca de 99,4 milhões de pessoas.
Apesar da taxa ainda elevada, o índice apresentou redução em comparação com 2022, período marcado pela intensa polarização das eleições presidenciais. Naquele ano, o percentual de pessoas que relatavam esse receio chegava a 68%.
Mesmo com a queda, os pesquisadores destacam que o medo continua disseminado em praticamente todos os grupos sociais e evidencia um ambiente político ainda marcado pela tensão e pela intolerância.
Além da percepção de insegurança, o estudo mostra que 2,2% da população brasileira afirma já ter sido vítima de violência política no último ano, o equivalente a aproximadamente 3,6 milhões de pessoas.
Mulheres relatam maior sensação de vulnerabilidade
Os dados revelam diferenças significativas entre homens e mulheres em relação ao medo da violência política.
Entre as mulheres, 65,5% afirmam temer agressões motivadas por posicionamentos políticos, enquanto entre os homens o índice é de 53,1%.
A pesquisa aponta que o sentimento de insegurança feminina ultrapassa a esfera política e está relacionado a uma percepção mais ampla de vulnerabilidade no espaço público.
Ainda assim, a vitimização direta aparece maior entre os homens. Cerca de 2,9% dos entrevistados do sexo masculino disseram já ter sofrido agressões por motivação política, contra 1,5% das mulheres.
Desigualdade social amplia percepção de insegurança
O estudo também demonstra que o medo da violência é mais intenso entre as camadas de menor renda.
Nas classes D e E, 64,2% dos entrevistados relatam medo de violência política, percentual superior aos 54,9% registrados entre integrantes das classes A e B.
Segundo os pesquisadores, a desigualdade econômica influencia diretamente na experiência cotidiana da violência. Enquanto grupos de renda mais alta tendem a concentrar preocupações em crimes patrimoniais e digitais, as populações mais pobres convivem com ameaças físicas constantes e maior exposição territorial ao crime organizado.
A vitimização também é mais elevada nesses grupos: 3,5% das pessoas de baixa renda disseram já ter sofrido agressões motivadas por política, contra 2,2% nas classes mais altas.
Crime organizado avança e chega ao interior do país
Outro dado alarmante da pesquisa aponta que 41,2% dos brasileiros afirmam conviver com a presença de facções criminosas ou milícias nos bairros onde moram.
Isso representa cerca de 68,7 milhões de pessoas vivendo em áreas sob influência direta ou indireta do crime organizado.
O levantamento indica que o fenômeno deixou de ser concentrado apenas em grandes centros urbanos e passou a atingir também cidades médias e municípios do interior.
Nas capitais, o índice chega a 55,9%. Já nas regiões metropolitanas, alcança 46%. Mesmo em cidades interioranas, 34,1% da população afirma perceber atuação de facções criminosas.
Segundo o relatório, a expansão territorial de organizações como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho consolidou uma estrutura nacionalizada de influência criminosa, transformando cidades do interior em corredores logísticos e áreas de disputa armada.
Facções influenciam rotina e comportamento nos bairros
Entre os moradores que reconhecem a presença do crime organizado em suas regiões, a maioria afirma perceber influência direta dessas organizações sobre a vida cotidiana.
O estudo mostra que:
61,4% afirmam que facções ou milícias exercem influência moderada ou forte nas regras de convivência dos bairros.
59,5% evitam falar sobre política por medo de represálias.
64,4% têm receio de denunciar crimes às autoridades.
81% temem ficar no meio de confrontos armados.
74,9% evitam frequentar determinados locais considerados perigosos.
Além disso, parte dos entrevistados relata sofrer interferência econômica direta do crime organizado.
Segundo a pesquisa, 12,5% disseram sentir-se obrigados a contratar serviços indicados por criminosos, como internet clandestina ou TV a cabo, enquanto 9,4% afirmam já ter sido pressionados a comprar produtos específicos impostos por facções ao comércio local.
Violência altera hábitos e restringe liberdade da população
O relatório revela ainda que o medo passou a reorganizar o cotidiano de milhões de brasileiros.
Entre as mudanças mais comuns relatadas pelos entrevistados estão:
36,5% mudaram trajetos habituais por medo da violência.
35,6% deixaram de sair à noite.
33,5% passaram a evitar andar com celular na rua.
26,8% deixaram de usar acessórios pessoais, como alianças e joias.
22,5% desistiram de comprar determinados bens por medo de roubos ou furtos.
Para os pesquisadores, o país vive atualmente uma lógica permanente de autoproteção, na qual decisões simples do dia a dia passam a ser condicionadas pelo risco de violência.
Medo feminino é descrito como “totalizante”
O relatório destaca que a experiência feminina da violência é mais abrangente e intensa.
As mulheres apresentaram índices superiores aos dos homens em todas as situações investigadas pela pesquisa. O medo de agressão sexual aparece como um dos principais fatores que ampliam a percepção geral de vulnerabilidade.
Segundo o estudo, 82,6% das mulheres afirmam temer sofrer violência sexual, cenário que impacta diretamente a circulação em espaços públicos e a autonomia cotidiana.
Como consequência, 40,9% das mulheres disseram ter deixado de sair à noite, enquanto 37,8% evitam usar o celular em ambientes públicos.
Presença do crime aumenta risco de vitimização
Os dados mostram que morar em áreas dominadas por facções aumenta significativamente a probabilidade de sofrer algum tipo de violência.
Enquanto a média nacional de vitimização é de 40,1%, nos bairros onde há presença do crime organizado o índice sobe para 51,1%.
Nessas regiões:
17,6% afirmam ter familiares ou conhecidos assassinados, contra 13,1% da média nacional.
21,4% relatam golpes financeiros digitais, acima dos 15,8% registrados no restante do país.
12,1% sofreram roubo de celular, enquanto a média nacional é de 8,3%.
6,5% foram vítimas de roubo à mão armada, percentual superior aos 3,8% registrados nacionalmente.
Pesquisa ouviu mais de 2 mil pessoas em 137 municípios
O levantamento “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança” foi realizado pelo Instituto Datafolha, sob encomenda do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre os dias 9 e 10 de março de 2026.
A pesquisa teve abrangência nacional, com 2.004 entrevistas realizadas em 137 municípios brasileiros.
A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Especialistas alertam para impacto social da insegurança
Para especialistas em segurança pública, os números revelam que o medo deixou de ser apenas uma consequência da violência e passou a atuar como elemento estruturante da vida social brasileira.
O avanço do crime organizado, associado à polarização política e ao aumento da percepção de vulnerabilidade, produz impactos diretos na convivência comunitária, na liberdade de expressão e na circulação das pessoas pelas cidades.
O relatório conclui que a sensação de insegurança afeta não apenas a integridade física da população, mas também o funcionamento da democracia e das relações sociais no país.








































































































