Pesquisa com dados de mais de 1,1 milhão de pessoas reforça que o transtorno de personalidade borderline resulta da interação entre fatores biológicos e ambientais, mas ainda não permite diagnóstico por DNA
O maior estudo genético já realizado sobre o transtorno de personalidade borderline (TPB) identificou 11 regiões do genoma associadas à condição. Os resultados reforçam que o desenvolvimento do transtorno não depende apenas das experiências vividas ou do ambiente, mas também envolve uma combinação complexa de fatores biológicos.
Publicado na revista científica Nature Genetics, o trabalho analisou inicialmente o material genético de 12.339 pessoas diagnosticadas com TPB e mais de 1,04 milhão de participantes sem o diagnóstico. Uma segunda etapa, com outros 685 pacientes e 107.750 controles, foi utilizada para verificar os resultados.
A descoberta representa um avanço importante na compreensão do borderline, mas não significa que exista um “gene do transtorno”. Também não permite prever individualmente quem desenvolverá a condição ou criar, neste momento, um teste genético de diagnóstico.
O resultado mais preciso é que o borderline apresenta uma estrutura poligênica: milhares de pequenas variações genéticas podem contribuir para aumentar ou reduzir a predisposição, sempre em interação com fatores ambientais, sociais e psicológicos.
O que é o transtorno de personalidade borderline
O transtorno de personalidade borderline é uma condição de saúde mental que afeta principalmente a regulação das emoções, a percepção sobre si mesmo e os relacionamentos interpessoais.
As pessoas diagnosticadas podem apresentar emoções intensas e flutuantes, impulsividade, medo acentuado de abandono, instabilidade nos relacionamentos e alterações na própria imagem.
Os sintomas variam entre os pacientes e podem coexistir com depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno bipolar, transtornos alimentares e problemas relacionados ao uso de substâncias.
De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, o transtorno também está associado a um risco maior de automutilação e comportamento suicida. A instituição destaca que tratamentos eficazes podem ajudar no controle dos sintomas e na melhora da qualidade de vida.
Estudo reuniu dados de 27 pesquisas
Para procurar variações genéticas associadas ao borderline, os pesquisadores realizaram um estudo de associação genômica ampla, conhecido pela sigla inglesa GWAS.
Esse tipo de pesquisa compara milhões de pequenas variações presentes no DNA de pessoas com e sem determinada condição. O objetivo é descobrir quais variantes aparecem com maior frequência no grupo diagnosticado.
A primeira análise reuniu informações de 27 estudos, biobancos e grandes bases de dados de saúde. Nessa etapa, foram examinados mais de 6 milhões de marcadores genéticos em 12.339 pacientes com borderline e 1.041.717 participantes utilizados como grupo de controle.
A análise inicial identificou seis regiões que alcançaram o nível de significância estatística exigido para estudos genômicos.
Segunda análise confirmou as primeiras associações
Os pesquisadores repetiram a análise em dois bancos de dados independentes, reunindo outros 685 pacientes com borderline e 107.750 participantes sem o diagnóstico.
As seis regiões identificadas inicialmente apresentaram resultados na mesma direção durante a etapa de replicação. Quando os dados das duas fases foram combinados, outras cinco regiões atingiram o critério de significância.
Ao final, os cientistas chegaram a 11 regiões independentes do genoma associadas ao transtorno de personalidade borderline.
A pesquisa também encontrou nove genes considerados candidatos a participar dos mecanismos biológicos relacionados à condição. Isso não significa, porém, que esses genes isoladamente provoquem o transtorno.
Não existe um único “gene do borderline”
Uma das principais conclusões é que o borderline deve ser compreendido como um transtorno poligênico.
Isso significa que não existe uma única alteração genética responsável pelo diagnóstico. A predisposição resulta da combinação de muitas variantes comuns, sendo que cada uma exerce um efeito muito pequeno.
A presença de uma variante associada também não determina que uma pessoa desenvolverá borderline. Indivíduos sem essas variantes podem receber o diagnóstico, enquanto pessoas com maior predisposição genética podem nunca apresentar o transtorno.
Por esse motivo, títulos que afirmam que a ciência descobriu a “origem genética do borderline” exigem cautela. O estudo encontrou associações estatísticas e não uma causa genética única.
O que representa a estimativa de 17,3%
O estudo estimou em 17,3% a herdabilidade baseada nas variantes genéticas comuns analisadas, tecnicamente chamada de herdabilidade por polimorfismos de nucleotídeo único.
Esse número não significa que a genética explique exatamente 17,3% do transtorno em cada paciente. Também não representa a probabilidade de uma pessoa transmitir o borderline aos filhos.
A estimativa descreve quanto das diferenças de predisposição observadas entre indivíduos de uma determinada população pode ser associado, estatisticamente, ao conjunto de variantes comuns incluídas na análise.
Estudos anteriores realizados com famílias e gêmeos estimaram uma herdabilidade mais ampla entre 46% e 69%. A diferença acontece porque essas pesquisas captam componentes hereditários que um estudo baseado apenas em variantes comuns pode não identificar.
Portanto, também não é totalmente preciso afirmar que as variantes encontradas agora “explicam 17% do risco hereditário”. O resultado se refere a uma medida estatística populacional, calculada sob determinadas hipóteses, e não ao risco individual de cada paciente.
Pontuação genética ainda tem baixa capacidade de previsão
Os cientistas também criaram uma pontuação de risco poligênico, calculada a partir da combinação de diversas variantes.
Nos grupos usados na análise principal, essa pontuação explicou, em média, 4,6% da variação relacionada ao diagnóstico. Nos dois grupos independentes de replicação, o desempenho foi menor: 3,1% em uma amostra espanhola e 2,6% em outra base de dados.
Os resultados mostram que a genética contribui para a predisposição, mas ainda possui capacidade limitada para prever individualmente quem terá o transtorno.
Por isso, a pontuação genética não pode ser utilizada como exame diagnóstico, nem para confirmar ou descartar borderline em uma pessoa.
O diagnóstico continua sendo clínico e deve ser realizado por profissionais de saúde mental a partir da avaliação dos sintomas, do histórico e do impacto da condição na vida do paciente.
Borderline apresentou sobreposição genética com TEPT e depressão
O estudo comparou os resultados do borderline com pesquisas genéticas sobre outros 50 transtornos, comportamentos e características de saúde.
A maior correlação genética foi encontrada com o transtorno de estresse pós-traumático, com índice de 0,77. Em seguida apareceram depressão, com 0,74, e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, com 0,67.
Também foram encontradas sobreposições com comportamento antissocial, solidão, automutilação, comportamento suicida, dor crônica, privação material e características relacionadas à exposição a traumas.
Uma correlação genética indica que parte das variantes associadas a uma condição também aparece ligada à outra. Isso não prova que um transtorno cause o outro, nem que todas as pessoas com borderline tenham vivido experiências traumáticas.
A sobreposição também não permite concluir que experimentar um trauma provoque diretamente problemas de identidade. A pesquisa genética não foi desenhada para demonstrar essa relação de causa e efeito.
Trauma continua sendo um fator ambiental relevante
A identificação de componentes genéticos não elimina a importância do ambiente.
Experiências adversas, relações interpessoais, traumas, contexto social e outros fatores ambientais podem contribuir para o desenvolvimento e para a intensidade dos sintomas.
A compreensão mais adequada é que biologia e ambiente interagem ao longo da vida. A predisposição genética não representa destino, assim como a presença de determinado fator ambiental não leva necessariamente ao transtorno.
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos afirma que as pesquisas sobre borderline investigam conjuntamente as influências genéticas, cerebrais, culturais, sociais e ambientais.
Estudo não é a primeira indicação de influência genética
A nova pesquisa é apresentada como a primeira a identificar variantes de risco para borderline com significância em escala genômica. Essa afirmação precisa ser diferenciada da ideia de que nunca existiram evidências anteriores de influência genética.
Estudos com famílias e gêmeos já apontavam havia anos que o transtorno possuía um componente hereditário. Em 2017, uma pesquisa genômica menor também encontrou sobreposição entre borderline, transtorno bipolar, esquizofrenia e depressão, mas não conseguiu identificar variantes individuais com significância estatística suficiente.
O avanço do novo trabalho está no tamanho da amostra e na identificação das primeiras 11 regiões que ultrapassaram o rigoroso limite de significância utilizado em estudos genômicos.
A revista Nature classificou o levantamento como a maior análise genética da condição realizada até agora.
Participantes tinham ascendência europeia
Uma das principais limitações é que todos os participantes analisados tinham ascendência europeia.
Isso significa que os resultados não podem ser automaticamente generalizados para pessoas de todas as origens étnicas e regiões do mundo. A frequência das variantes e a capacidade das pontuações genéticas podem mudar entre diferentes populações.
Os próprios autores defendem a realização de pesquisas com participantes de outras ancestralidades para ampliar a validade das descobertas.
Essa limitação é especialmente importante para o Brasil, que possui uma população altamente miscigenada. Antes de qualquer aplicação clínica, os resultados precisariam ser avaliados em grupos mais diversos.
Diagnósticos foram obtidos de formas diferentes
Outra limitação é a heterogeneidade das bases reunidas.
Parte dos participantes passou por avaliações clínicas baseadas em critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Em outros grupos, o diagnóstico foi identificado por códigos médicos presentes em bancos de saúde.
Uma das bases utilizou diagnósticos informados pelos próprios participantes. Essas diferenças podem influenciar os resultados porque o borderline apresenta manifestações variadas e pode ser confundido com outras condições psiquiátricas.
Os autores também reconhecem que, embora seja o maior levantamento genético sobre o transtorno, a quantidade de pacientes ainda é relativamente pequena quando comparada aos estudos sobre depressão, esquizofrenia ou transtorno bipolar.
Descoberta não muda o diagnóstico atualmente
O estudo pode ajudar futuras pesquisas a entender melhor os mecanismos biológicos associados ao borderline, mas não altera imediatamente a prática clínica.
Não existe um exame de sangue, teste de DNA ou marcador biológico isolado capaz de confirmar o transtorno. Nenhuma pessoa deve interpretar uma pontuação genética como diagnóstico.
A avaliação deve ser feita por psicólogo ou psiquiatra qualificado. O profissional analisa a duração e a intensidade dos sintomas, o histórico do paciente e a presença de outras condições que possam produzir manifestações semelhantes.
A descoberta também não diminui a importância dos tratamentos já utilizados, como a psicoterapia. A terapia comportamental dialética está entre as abordagens estabelecidas estudadas para o transtorno.
Resultado abre caminho para novas pesquisas
A identificação das 11 regiões oferece novos pontos de partida para investigar quais processos cerebrais e biológicos participam do desenvolvimento do borderline.
Os próximos estudos deverão aumentar o número de pacientes, incluir diferentes ancestralidades e analisar sintomas de maneira mais detalhada, em vez de tratar todos os diagnósticos como uma única categoria.
Ainda será necessário descobrir como as variantes afetam a atividade dos genes e de que maneira interagem com experiências ambientais.
O principal resultado, portanto, não é a criação de um teste genético, mas a confirmação de que o transtorno de personalidade borderline possui uma arquitetura biológica complexa, compartilhada parcialmente com outras condições psiquiátricas e combinada a influências ambientais.









































































































