O assassinato de Paula Santos da Silva, em São Vicente, soma-se a uma sequência repugnante de crimes que não pode continuar sendo explicada como simples “ciúme”. Dados da SSP-SP mostram que 125 mulheres foram vítimas de feminicídio entre janeiro e maio de 2026 — uma morte a cada 29 horas
Os feminicídios não param
Paula Santos da Silva tinha 37 anos, trabalhava como vendedora e havia acabado de deixar o emprego quando foi perseguida e esfaqueada no meio da rua, no Centro de São Vicente, no litoral paulista.
O suspeito, Severino Alves Pereira, de 56 anos, era seu ex-namorado. Segundo a Polícia Civil, ele não aceitava o término do relacionamento e teria planejado o ataque depois de ser bloqueado por Paula nas redes sociais.
O homem levou uma faca ao encontro, perseguiu a vítima e a atingiu na barriga e no pescoço. Gravemente ferida, Paula ainda tentou chegar ao prédio onde morava, mas morreu antes que pudesse ser socorrida.
Ela havia se mudado para o imóvel com a filha de nove anos cerca de seis meses antes.
O assassinato não pode ser reduzido a mais uma ocorrência policial, a uma desavença de casal ou a uma explosão momentânea de “ciúme”. Paula foi morta porque um homem decidiu que o fim do relacionamento não seria uma escolha dela.
Essa é a verdade repugnante que conecta tantos feminicídios. Homens transformam afeto em posse, relacionamento em controle e separação em uma afronta que acreditam ter o direito de punir com a morte.
E São Paulo continua contando os corpos.

Uma mulher morta a cada 29 horas em São Paulo
Dados da Secretaria da Segurança Pública mostram que São Paulo registrou 125 feminicídios entre janeiro e maio de 2026.
Foram 27 mulheres mortas em janeiro, 30 em fevereiro, outras 30 em março, 20 em abril e 18 em maio.
Em apenas cinco meses, o estado contabilizou uma média de 25 vítimas mensais. Considerando os 151 dias do período, isso significa que uma mulher foi assassinada a cada 29 horas em território paulista.
O feminicídio de Paula ocorreu em julho. Portanto, não aparece nessa soma.
Também não estão incluídos os demais crimes registrados em junho e julho. O número atual de vítimas é, inevitavelmente, maior do que os 125 casos oficialmente contabilizados até maio.
O recorte já é devastador, mas ainda está incompleto.
Não existe espaço para comemorar a redução de 30 casos em março para 18 em maio. Dezoito mulheres mortas em um único mês não representam sucesso de política pública. Representam 18 fracassos irreversíveis.
São famílias destruídas, filhos sem mães e vidas interrompidas porque homens se sentiram autorizados a decidir se uma mulher poderia continuar vivendo.
Recorde de 2025 não foi suficiente para conter a violência
São Paulo chegou a 2026 depois de registrar 266 feminicídios ao longo de 2025, o maior número desde o início da série histórica da SSP-SP, em 2018.
O total representa um crescimento de aproximadamente 8,1% em comparação com 2024, quando 246 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado. Na capital paulista, também houve recorde: os registros passaram de 49, em 2024, para 60 no ano seguinte.
O recorde deveria ter provocado uma reação emergencial. Deveria ter resultado em acompanhamento mais rigoroso dos agressores, ampliação da rede de acolhimento, fortalecimento das Delegacias de Defesa da Mulher e integração imediata entre polícia, Justiça e assistência social. No entanto, 125 mulheres já haviam sido mortas nos primeiros cinco meses de 2026.
Os números indicam que a violência atravessou a mudança de ano sem encontrar uma barreira eficiente. São Paulo encerrou 2025 no pior patamar de sua história e continuou registrando, em média, um feminicídio a cada 29 horas no início de 2026.
Maioria das vítimas não tinha boletim anterior
Outro dado divulgado pela SSP-SP torna o cenário ainda mais preocupante. Das 233 mulheres assassinadas entre janeiro e novembro de 2025, 170 não haviam registrado anteriormente um boletim de ocorrência relacionado à violência sofrida.
Isso significa que aproximadamente 73% das vítimas daquele período não possuíam denúncia anterior identificada nos registros policiais.
A ausência de boletim não significa necessariamente que a violência começou no dia do assassinato. Também pode revelar medo, dependência financeira, isolamento, ameaças, desconfiança nas autoridades ou dificuldade para acessar a rede de proteção.
O dado não pode servir para responsabilizar a vítima por não ter denunciado. Pelo contrário: ele demonstra que um sistema dependente exclusivamente da iniciativa de uma mulher ameaçada jamais será suficiente para impedir todos os feminicídios.
É necessário capacitar profissionais de saúde, educação, assistência social, condomínios e ambientes de trabalho para reconhecer sinais de violência. A proteção precisa alcançar a mulher antes mesmo que ela consiga entrar em uma delegacia.
Esperar que a vítima denuncie enquanto vive sob medo e controle é transferir para ela uma responsabilidade que pertence ao Estado e a toda a sociedade.
Ciúme não explica e muito menos justifica
O suspeito do assassinato de Paula confessou o crime e alegou ter visto uma suposta troca de mensagens entre a vítima e outro ex-namorado.
A palavra “ciúme” frequentemente aparece nos depoimentos de agressores e nas primeiras descrições de crimes contra mulheres. Ela não pode continuar sendo usada como uma explicação confortável para atos de extrema violência.
Ciúme não segura uma faca, não persegue uma mulher na rua e não planeja um assassinato. O responsável pelo crime é o agressor.
No caso de São Vicente, a própria investigação aponta para premeditação. Severino teria procurado Paula já levando a arma utilizada no ataque.
Depois de esfaqueá-la, ele teria ido até a Ponte Pênsil para descartar a faca e, em seguida, lavado as mãos na Praça da Biquinha.
Não houve uma simples perda de controle. Houve uma sequência de decisões. O homem decidiu levar a faca, perseguir Paula, atacá-la, fugir, eliminar a arma e tentar apagar os vestígios.
Chamar isso apenas de ciúme é suavizar uma violência sustentada por controle, perseguição e sentimento de propriedade.
Paula não pertencia ao ex-namorado. Nenhuma mulher pertence a homem algum.
Paula foi morta depois de impor um limite
Paula e o suspeito mantiveram um relacionamento durante aproximadamente três meses.
Mesmo após o término, Severino teria continuado tentando estabelecer contato. Ele prestava serviços de manutenção no prédio e estava proibido de ir até o apartamento da vítima.
Paula o bloqueou nas redes sociais. Essa atitude foi usada pelo investigado como justificativa para procurá-la.
Bloquear alguém não é uma provocação. É um direito e, muitas vezes, uma tentativa de proteção.
Uma mulher não deveria precisar explicar por que terminou um namoro. Não deveria precisar negociar o direito de não responder mensagens. Não deveria viver com medo de encontrar o ex-companheiro na porta de casa ou na saída do trabalho.
Quando um agressor interpreta o afastamento como uma afronta, a vítima pode passar a ser perseguida na rua, no emprego, em casa e nas redes sociais.
O feminicídio raramente começa no momento do assassinato. Muitas vezes, é precedido por vigilância, cobranças, ameaças, humilhações, isolamento, agressões e perseguição.
O Estado precisa reconhecer esses sinais antes que uma faca seja erguida, um tiro seja disparado ou outro corpo seja encontrado.
Fevereiro e março tiveram 30 vítimas cada
Fevereiro e março foram os meses mais violentos do período analisado, com 30 feminicídios registrados em cada um.
Em fevereiro, São Paulo teve mais de uma vítima de feminicídio por dia. Março repetiu o mesmo número.
Janeiro terminou com 27 mulheres mortas. Em abril, foram 20 vítimas. Maio contabilizou outras 18.
A redução registrada nos dois últimos meses não permite concluir que a violência esteja controlada. Uma oscilação mensal não representa uma tendência consolidada, especialmente porque os dados posteriores ainda não foram incorporados ao recorte.
Mesmo o menor resultado significa que 18 mulheres foram assassinadas em apenas 31 dias.
Quando o melhor número disponível ainda representa uma morte a cada dois dias, não há vitória para anunciar.
Qualquer tentativa de transformar essa queda pontual em propaganda institucional seria um insulto às vítimas e às famílias que continuam convivendo com as consequências da violência.
Paula ainda não aparece na estatística
O assassinato de Paula aconteceu em julho, dois meses depois do encerramento do recorte disponível.
Isso significa que a morte dela será acrescentada a uma estatística que já contabilizava 125 vítimas até maio.
O mesmo ocorrerá com outros casos registrados durante junho e julho.
A demora para apresentar um retrato consolidado prejudica a cobertura jornalística, a fiscalização das políticas públicas e a compreensão da sociedade sobre a dimensão atual da violência.
Quantas mulheres foram mortas em São Paulo desde o começo de junho? Quantas tinham medida protetiva? Quantas já haviam denunciado ameaças ou perseguições? Quantas foram assassinadas depois de terminar um relacionamento?
Essas respostas não deveriam depender de levantamentos manuais realizados por jornalistas.
Caso de policial assassinada também marcou 2026
Entre os casos que abalaram São Paulo neste ano está a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, assassinada em fevereiro no bairro do Brás, na capital.
O marido dela, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, é acusado de feminicídio e fraude processual. Ele está preso no Presídio Militar Romão Gomes e tem interrogatório previsto para agosto.
Gisele integrava a própria estrutura de segurança pública. Ainda assim, não escapou da violência dentro da relação.
O caso evidencia que o feminicídio atravessa profissões, classes sociais, níveis de escolaridade e regiões.
Nem mesmo pertencer à polícia foi suficiente para protegê-la.
O assassinato aconteceu em fevereiro, um dos meses mais violentos do ano em São Paulo. Foram 30 feminicídios em apenas 28 dias.
Gisele não foi a única vítima naquele mês. Paula não foi a única vítima em julho. E nenhuma delas pode ser tratada como personagem descartável de uma notícia que será esquecida quando outro crime ocupar as manchetes.

Não são casos isolados
A repetição dos crimes demonstra que São Paulo não enfrenta uma sequência de tragédias particulares sem conexão.
Os contextos mudam, mas determinados comportamentos se repetem. O agressor não aceita o término, exige acesso ao celular, controla amizades, aparece no trabalho, monitora redes sociais, ameaça, persegue, agride e tenta restabelecer o domínio sobre a vítima.
Quando a mulher rompe esse ciclo, o risco pode aumentar.
Isso não significa que ela deva permanecer com o agressor. Significa que o Estado tem a obrigação de garantir que ela consiga sair viva da relação.
Uma medida protetiva não pode ser apenas um documento entregue à vítima. Precisa ser acompanhada de fiscalização, avaliação de risco e resposta imediata diante de qualquer descumprimento.
A mulher ameaçada precisa ter acesso a abrigo, assistência jurídica, apoio psicológico e condições financeiras para se afastar.
Não se combate feminicídio apenas prendendo o assassino ao lado do corpo da vítima.
Penas maiores não substituem prevenção
Desde 2024, o feminicídio é um crime autônomo no Código Penal, com pena de 20 a 40 anos de prisão.
O endurecimento da legislação foi necessário. Mas os números mostram que a ameaça de uma condenação maior não é suficiente para deter todos os agressores.
A punição acontece depois.
Quando o Estado finalmente condena um feminicida, a mulher já está morta. Os filhos já perderam a mãe. A família já foi destruída.
Não basta punir com rigor. É preciso proteger com urgência.
A prevenção exige que ameaças e perseguições sejam levadas a sério, que denúncias sejam avaliadas de maneira qualificada e que agressores considerados de alto risco sejam efetivamente monitorados.
Também exige que as autoridades reconheçam o término de um relacionamento como um momento potencialmente perigoso quando já existem sinais de controle e violência.
Dados precisam ser claros, completos e atualizados
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) mantém uma página específica sobre violência contra a mulher e divulga o feminicídio separadamente dos demais homicídios dolosos.
As informações existem, mas permanecem distribuídas entre páginas, tabelas e sistemas diferentes.
A população não deveria precisar percorrer diferentes ambientes para descobrir quantas mulheres foram mortas.
São Paulo precisa de um painel único, de fácil acesso e atualizado, com informações por município, mês e região.
Esse sistema também deveria mostrar quantas vítimas tinham medidas protetivas, quantas haviam denunciado o agressor, quantos feminicídios foram precedidos por perseguição e quantos autores descumpriram determinações judiciais.
Uma planilha informa o número de vítimas. Um sistema realmente transparente ajuda a identificar onde a proteção falhou.
Transparência não pode ser apenas formal
Publicar estatísticas não é o mesmo que garantir transparência.
Os dados precisam ser compreensíveis e divulgados rapidamente. Também devem permitir que jornalistas, pesquisadores e cidadãos acompanhem a execução das políticas públicas.
A divulgação fragmentada dificulta a identificação dos municípios mais atingidos e impede uma avaliação clara sobre os resultados das ações anunciadas pelo governo estadual.
Quantas das 125 mulheres assassinadas entre janeiro e maio haviam procurado uma delegacia? Quantas possuíam medidas protetivas? Quantas tinham relatado ameaças? Quantos agressores já possuíam histórico de violência?
Essas informações precisam ser apresentadas publicamente.
Sem elas, o Estado informa quantas mulheres morreram, mas não permite compreender integralmente o caminho que levou cada caso até o feminicídio.
O que está acontecendo com São Paulo?
Não existe uma única causa capaz de explicar 125 feminicídios em cinco meses.
A violência envolve desigualdade de gênero, cultura de posse, naturalização do controle masculino, dependência econômica, isolamento, fragilidade da rede de acolhimento e falhas na avaliação de risco.
O feminicídio é o estágio mais extremo de uma violência que pode começar com comportamentos apresentados como demonstrações de amor.
Cobrar senhas, controlar roupas, proibir amizades, monitorar localização, aparecer sem autorização no trabalho e impedir contatos com familiares não são gestos de cuidado.
São sinais de controle.
Nem todo homem controlador cometerá feminicídio, mas toda violência precisa ser levada a sério.
A sociedade também precisa abandonar perguntas que colocam a vítima sob julgamento. Por que ela não denunciou? Por que continuou no relacionamento? Por que não saiu antes?
A pergunta correta é outra: por que tantos homens acreditam que podem controlar, perseguir e matar mulheres?
E por que o Estado ainda não consegue detê-los antes que seja tarde?
Anunciar programas não basta
São Paulo possui delegacias especializadas, aplicativo de proteção, medidas protetivas, monitoramento eletrônico e um plano estadual de enfrentamento à violência contra a mulher.
Essas iniciativas são importantes. Mas precisam ser avaliadas pelos resultados produzidos na vida real.
Se 125 mulheres foram assassinadas em apenas cinco meses, o governo estadual precisa explicar quantas delas haviam procurado ajuda, quais falhas foram identificadas e o que será modificado para evitar novos crimes.
Programas não podem existir apenas em campanhas institucionais.
Aplicativos não podem substituir atendimento humano, investigação eficiente, fiscalização e acolhimento.
Política pública não se mede pela quantidade de anúncios. Mede-se pelo número de mulheres que continuam vivas.
A sociedade também precisa reagir
O enfrentamento ao feminicídio não depende apenas da vítima.
Familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho precisam reconhecer ameaças e perseguições como situações graves.
Uma mulher pode estar isolada, com medo, emocionalmente fragilizada ou financeiramente dependente. Muitas vezes, ela não consegue pedir ajuda de forma direta.
Não basta aconselhá-la a ir embora. É necessário oferecer apoio concreto e evitar atitudes que possam ampliar o risco.
Também é preciso denunciar gritos, agressões, ameaças e pedidos de socorro.
A violência doméstica não é um assunto privado. O silêncio protege o agressor, nunca a vítima.
Paula não pode virar apenas mais um número
Paula tinha uma profissão, uma rotina e uma filha.
Ela havia encerrado um relacionamento e bloqueado o ex-namorado. Por exercer um direito básico, foi perseguida e morta na rua, segundo a investigação.
Seu nome não pode ser reduzido à próxima linha de uma planilha.
Mas a estatística também não pode ser ignorada. Antes do assassinato de Paula, São Paulo já havia registrado 125 feminicídios somente entre janeiro e maio.
O caso de São Vicente precisa aumentar a pressão por respostas.
São Paulo enfrenta uma epidemia social repugnante, alimentada pela incapacidade de impedir que homens tratem mulheres como propriedade.
Enquanto cada feminicídio for apresentado como uma tragédia provocada por “ciúme”, continuaremos discutindo as desculpas do assassino depois do crime, em vez de reconhecer os sinais que apareceram antes.
Não basta lamentar a morte de Paula.
Não basta prender o homem apontado como autor.
Não basta publicar uma nota de pesar.
É preciso cobrar proteção, prevenção, transparência e respostas concretas.
São Paulo já contou 125 mulheres mortas até maio. A pergunta que deve atormentar as autoridades é uma só: o que será feito para impedir a próxima?
Como denunciar e buscar ajuda
Mulheres em situação de violência e pessoas que presenciarem agressões podem procurar ajuda pelo Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia.
O canal oferece orientação, informa os serviços mais próximos e recebe denúncias. Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp, no número (61) 9610-0180.
Em situações de emergência ou risco imediato, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.








































































































