Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Teerã pediu que o grupo do Iêmen esteja preparado para atacar a navegação caso os Estados Unidos atinjam a infraestrutura elétrica iraniana.
O Irã teria orientado o movimento Houthi, no Iêmen, a se preparar para interromper a navegação pelo estreito de Bab el-Mandeb, passagem estratégica que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. A ação seria adotada caso os Estados Unidos ataquem a infraestrutura de energia elétrica iraniana.
A informação foi relatada à Reuters por duas fontes iranianas de alto escalão e uma fonte regional com conhecimento das discussões. Todas falaram sob condição de anonimato. Até a publicação da reportagem, o governo iraniano e os Houthis não haviam se manifestado oficialmente sobre a alegação.
O possível bloqueio abriria uma nova frente na crise energética internacional. Com o Estreito de Ormuz já fechado em consequência do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, uma ofensiva no Mar Vermelho poderia comprometer simultaneamente as duas principais rotas utilizadas para o transporte de petróleo e gás no Oriente Médio.
Houthis estariam aguardando uma ordem para atacar
Uma fonte próxima aos Houthis afirmou que o grupo teria concluído os preparativos para realizar ataques contra navios na região de Bab el-Mandeb.
Mísseis e drones teriam sido posicionados em áreas montanhosas do Iêmen próximas a Hodeidah e ao Golfo de Áden. Segundo essa fonte, os combatentes estariam aguardando apenas uma ordem para iniciar as operações.
A Reuters não conseguiu verificar de forma independente as informações sobre a movimentação dos armamentos. Também não foram apresentadas imagens ou provas públicas que confirmem o posicionamento dos equipamentos.
A fonte afirmou ainda que representantes da Guarda Revolucionária do Irã presentes no Iêmen participariam da decisão sobre o momento de iniciar uma eventual tentativa de bloqueio.
Essa alegação também não foi confirmada oficialmente. Teerã reconhece proximidade política com os Houthis, mas nega controlar diretamente as decisões militares do grupo.
O que é o Estreito de Bab el-Mandeb
Bab el-Mandeb é uma passagem marítima localizada entre o Iêmen, na Península Arábica, e países do continente africano, como Djibuti e Eritreia.
O estreito funciona como uma porta de entrada para o Mar Vermelho e permite que navios sigam em direção ao Canal de Suez, no Egito, uma das rotas comerciais mais importantes do mundo.
Em condições normais, embarcações que transportam petróleo, gás, produtos industrializados e alimentos atravessam a região diariamente. Qualquer interrupção força parte dos navios a contornar o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança.
A rota alternativa acrescenta milhares de quilômetros às viagens, aumenta os gastos com combustível e seguros e prolonga o tempo necessário para que as mercadorias cheguem ao destino.
Por isso, mesmo sem um bloqueio completo, ataques ou ameaças contra navios podem elevar significativamente os custos do comércio internacional.

Bloqueio agravaria crise provocada pelo fechamento de Ormuz
O Estreito de Ormuz era responsável, antes do início da guerra, pela passagem de aproximadamente um quinto do fornecimento mundial de energia.
Após o fechamento da rota, parte das exportações do Golfo foi redirecionada para oleodutos e portos do Mar Vermelho. A região de Bab el-Mandeb passou, assim, a ter uma importância ainda maior para o mercado internacional.
Atualmente, cerca de 7% dos suprimentos mundiais de energia passam pelo Mar Vermelho, segundo as estimativas citadas pela Reuters.
A Arábia Saudita desviou aproximadamente 70% de suas exportações energéticas para o porto de Yanbu, na costa do Mar Vermelho. Um ataque contra esse porto ou contra navios que transportam petróleo saudita poderia reduzir ainda mais a oferta internacional.
O risco de interrupção das duas rotas ao mesmo tempo já preocupa governos, transportadoras e operadores do mercado. Com Ormuz e Bab el-Mandeb comprometidos, o Oriente Médio perderia suas principais saídas marítimas para a exportação de energia.
Irã tentaria elevar o custo de um ataque americano
Segundo uma das fontes regionais, a possível mobilização dos Houthis faria parte de uma estratégia iraniana para pressionar Washington.
A intenção seria demonstrar que um ataque dos Estados Unidos contra a rede elétrica do Irã poderia provocar consequências econômicas muito além do território iraniano.
Ao ameaçar a navegação no Mar Vermelho e o transporte do petróleo saudita, Teerã aumentaria o risco de alta nos preços da energia, dificuldades logísticas e prejuízos para diferentes países.
A movimentação teria ocorrido em meio às ameaças do presidente americano Donald Trump de atingir a infraestrutura elétrica iraniana. As fontes, porém, não souberam informar se a mensagem aos Houthis foi enviada antes ou depois das declarações de Trump.
Arábia Saudita acompanha ameaça com preocupação
Duas fontes regionais próximas ao governo saudita afirmaram que a Arábia Saudita está tratando as ameaças do Irã e dos Houthis com seriedade.
Riad estaria ciente de uma coordenação mais intensa entre o movimento iemenita e Teerã em relação às operações no Mar Vermelho.
As preocupações aumentaram após os Houthis dispararem mísseis contra a Arábia Saudita. O grupo acusou o governo saudita de bombardear um aeroporto sob seu controle no Iêmen.
O episódio rompeu uma trégua que havia reduzido durante aproximadamente quatro anos os confrontos diretos entre os Houthis e a Arábia Saudita.
Uma retomada do conflito poderia atingir não apenas alvos militares, mas também oleodutos, terminais de exportação e portos utilizados pelo setor energético saudita.
Ataques anteriores já alteraram comércio mundial
Durante a guerra na Faixa de Gaza, os Houthis realizaram uma série de ataques contra embarcações no Mar Vermelho. O grupo afirmava que as ofensivas eram uma resposta às operações militares israelenses.
Diante do risco, algumas das maiores empresas de transporte marítimo do mundo suspenderam temporariamente a passagem pela região.
Navios passaram a contornar a África, tornando as viagens mais demoradas e caras. A mudança afetou cadeias de abastecimento, prazos de entrega e custos de frete em diferentes continentes.
O histórico mostra que os Houthis não precisariam controlar fisicamente todo o estreito para provocar uma interrupção relevante. A simples possibilidade de ataques pode levar empresas a evitar a região por razões de segurança.
Grupo integra o chamado Eixo da Resistência
O Irã considera os Houthis parte do chamado Eixo da Resistência, aliança regional formada por organizações políticas e armadas contrárias à influência dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio.
O grupo também inclui o Hezbollah, do Líbano, e milícias xiitas que atuam no Iraque. Algumas dessas organizações já participaram do atual conflito envolvendo Teerã e Washington.
Os Houthis, no entanto, ainda não anunciaram formalmente sua entrada na guerra.
Os Estados Unidos acusam o Irã de fornecer armas, financiamento, treinamento e suporte técnico ao movimento iemenita. Parte dessa assistência, segundo Washington, seria intermediada pelo Hezbollah.
O governo iraniano nega as acusações e sustenta que os Houthis tomam suas próprias decisões.
Conflito começou após ataques contra o Irã
A atual escalada teve início em 28 de fevereiro, quando Israel e Estados Unidos atacaram o território iraniano. Em resposta, Teerã fechou o Estreito de Ormuz, atingindo uma das principais rotas energéticas do planeta.
Uma trégua frágil alcançada em junho reduziu temporariamente os confrontos diretos, mas o acordo entrou em colapso e as tensões voltaram a crescer.
As ameaças contra a rede elétrica iraniana e a possível mobilização dos Houthis indicam que o conflito pode se espalhar novamente pela região.
Enquanto não houver uma confirmação oficial de Teerã ou do movimento iemenita, a ordem para bloquear Bab el-Mandeb permanece baseada nos relatos das fontes ouvidas pela Reuters. A movimentação, porém, já desperta preocupação pela capacidade de agravar a crise energética e comprometer uma das principais rotas do comércio mundial.








































































































