Grupo anuncia dissolução do órgão que administrava o território desde 2007; proposta abre caminho para comitê tecnocrático em meio a negociações sobre reconstrução, desarmamento e retirada israelense
Hamas anuncia saída do governo da Faixa de Gaza
O Hamas anunciou nesta segunda-feira (6) a dissolução do órgão ligado ao grupo que administrava a Faixa de Gaza há quase duas décadas. A decisão abre caminho para que um comitê tecnocrático palestino assuma a gestão civil do território.
O anúncio representa uma mudança importante no cenário político de Gaza, controlada pelo Hamas desde 2007, quando o grupo assumiu o poder após confrontos com o Fatah, partido do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.
Segundo representantes do grupo, a medida busca aliviar o sofrimento da população em meio à guerra, ao bloqueio, ao atraso na reconstrução e à permanência das forças israelenses em partes do território.
Chefe do governo ligado ao Hamas renuncia
O chefe do governo ligado ao Hamas, Mohammed al-Farra, renunciou ao cargo na manhã desta segunda-feira. A informação foi confirmada por Ismail Thawabta, diretor-geral do escritório de mídia administrado pelo grupo em Gaza, durante uma coletiva de imprensa.
De acordo com Thawabta, apenas funcionários técnicos devem permanecer nos cargos temporariamente. A permanência desse grupo tem como objetivo evitar um vácuo administrativo enquanto uma nova estrutura de governo civil é organizada.
O porta-voz também pediu que as partes envolvidas acelerem os trâmites para que o Comitê Nacional para a Administração de Gaza assuma definitivamente as funções administrativas no território.
Grupo diz querer evitar novos ataques israelenses
Em comunicado separado, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, afirmou que a saída do grupo da administração de Gaza busca eliminar pretextos para novas interferências israelenses.
Segundo ele, o Hamas reafirma o compromisso de transferir todas as responsabilidades de governança civil para uma nova estrutura administrativa palestina.
A decisão ocorre em um momento em que Israel descarta o retorno do Hamas ao poder em Gaza, mas também resiste, por enquanto, à possibilidade de a Autoridade Palestina assumir diretamente o controle do território.
Comitê tecnocrático deve assumir administração civil
A dissolução do governo ligado ao Hamas abre espaço para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza, conhecido pela sigla NCAG. O órgão, atualmente sediado no Cairo, foi criado no contexto das negociações conduzidas pelo chamado Conselho de Paz, liderado pelos Estados Unidos.
A proposta é que o comitê implemente uma administração civil de caráter tecnocrático, com foco em serviços públicos, reconstrução, organização institucional e retomada mínima da governança em Gaza.
A ideia de uma administração tecnocrática busca evitar que a gestão do território fique diretamente vinculada a facções armadas ou partidos políticos, em um momento de forte pressão internacional por estabilidade.
Governo Trump endossa transição em Gaza
O Conselho de Paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, endossou o anúncio e afirmou que o novo comitê deve controlar todas as armas em circulação na Faixa de Gaza.
Em comunicado publicado no X, antigo Twitter, o conselho afirmou que o princípio central para o futuro do território deve ser “uma única autoridade, uma única lei e uma única arma”.
Na prática, isso significa que todas as armas deveriam ficar sob controle do Comitê Nacional para a Administração de Gaza. O ponto, porém, é considerado um dos mais sensíveis das negociações, já que envolve diretamente o desarmamento do Hamas e de outros grupos armados palestinos.
Desarmamento segue como principal impasse
Apesar do anúncio, analistas veem a decisão do Hamas como uma medida principalmente simbólica. O cientista político Mkhaimar Abusada afirmou à AFP que o problema central não é apenas a dissolução do comitê governamental, mas a aceitação do desarmamento pelo grupo.
Esse continua sendo o principal ponto de bloqueio para a segunda fase do acordo de cessar-fogo.
A primeira fase permitiu a libertação dos últimos reféns israelenses mantidos pelo Hamas em troca de palestinos presos por Israel. Já a segunda etapa deveria incluir o desarmamento do grupo e uma retirada progressiva das forças israelenses de Gaza.
Essa fase, no entanto, segue estagnada há meses.
Proposta envolve reconstrução e força internacional
Em meados de junho, facções palestinas se reuniram com mediadores no Cairo e apresentaram uma proposta para a segunda fase do acordo de cessar-fogo em Gaza.
O roteiro, apresentado pelo Conselho de Paz liderado pelos Estados Unidos, inclui mecanismos para o futuro do território. Entre os pontos discutidos estão reconstrução, desarmamento, retirada israelense e implantação de uma força internacional de paz.
A reconstrução é uma das prioridades mais urgentes. Grande parte de Gaza foi destruída desde o início da guerra, em outubro de 2023, e a população enfrenta dificuldades de acesso a abrigo, alimentos, serviços médicos e infraestrutura básica.
Ataques continuam apesar do cessar-fogo
Mesmo com o cessar-fogo em vigor desde 10 de outubro de 2025, novos ataques foram registrados no território.
Nesta segunda-feira, cinco palestinos morreram e pelo menos 18 ficaram feridos em ataques israelenses distintos contra pessoas deslocadas e áreas residenciais no sul de Gaza e na Cidade de Gaza, segundo Mahmoud Basal, porta-voz da Defesa Civil em Gaza, órgão também controlado pelo Hamas.
Hamas e Israel seguem trocando acusações de violação da trégua. A continuidade da violência dificulta o avanço das negociações e amplia a pressão humanitária sobre a população civil.
Número de mortos em Gaza passa de 73 mil desde 2023
Autoridades de saúde sediadas em Gaza informaram que, desde o início do cessar-fogo, o número de mortos chegou a 1.072, com 3.463 feridos.
Desde o início do conflito, em outubro de 2023, o total de mortos em Gaza chegou a 73.098, com 173.571 feridos, segundo os dados divulgados pelas autoridades locais.
Os números reforçam a dimensão da crise humanitária no território e aumentam a pressão internacional por uma solução política que combine segurança, reconstrução e governança.
Israel rejeita retorno do Hamas ao poder
Israel afirma que não aceitará o retorno do Hamas ao poder em Gaza. Para o governo israelense, qualquer arranjo futuro precisa impedir que o grupo retome o controle político e militar do território.
Ao mesmo tempo, Israel também tem resistido à possibilidade de a Autoridade Palestina assumir imediatamente a administração de Gaza. Essa posição cria um impasse sobre quem deve governar o território no pós-guerra.
A proposta de um comitê tecnocrático surge justamente como tentativa de contornar esse bloqueio, oferecendo uma alternativa administrativa sem entregar diretamente o controle ao Hamas ou à Autoridade Palestina.
Saída do Hamas pode destravar negociações, mas dúvidas permanecem
A dissolução do órgão governamental ligado ao Hamas pode facilitar parte das negociações internacionais, especialmente no campo da governança civil. No entanto, o anúncio não resolve automaticamente as principais questões do conflito.
O desarmamento do grupo, a retirada gradual das forças israelenses, a segurança nas fronteiras, a reconstrução de Gaza e o papel da Autoridade Palestina seguem sem solução definitiva.
Além disso, a permanência de funcionários técnicos ligados à antiga administração mostra que a transição ainda depende de acordos práticos para evitar um colapso administrativo.
Futuro de Gaza entra em nova fase de incerteza
O anúncio do Hamas marca uma tentativa de reposicionar o futuro político da Faixa de Gaza. Após quase 20 anos no comando do território, o grupo afirma estar disposto a entregar a administração civil para um comitê palestino tecnocrático.
A decisão, porém, acontece sob enorme pressão militar, diplomática e humanitária. Para Israel, o ponto central segue sendo impedir o retorno do Hamas ao poder. Para os Estados Unidos, a prioridade é consolidar uma autoridade única capaz de controlar todas as armas no território.
Para os palestinos em Gaza, a urgência é ainda mais direta: reconstrução, segurança, acesso a serviços básicos e fim dos ataques.
A saída formal do Hamas do governo pode abrir uma nova etapa nas negociações. Mas, sem acordo sobre o desarmamento e sem garantias de retirada israelense, o futuro de Gaza continua incerto.








































































































