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Polícia mira ONG ligada à produtora de filme sobre Bolsonaro em investigação de contrato milionário de wi-fi em São Paulo

Instituto Conhecer Brasil, comandado por Karina Gama, é investigado por suspeitas de irregularidades em parceria com a Prefeitura de SP para instalação de internet gratuita em comunidades; contrato passou de R$ 108 milhões para R$ 157,1 milhões, segundo a Polícia Civil.


A Polícia Civil de São Paulo realizou nesta segunda-feira, 1º de junho de 2026, uma operação contra o Instituto Conhecer Brasil, organização da sociedade civil responsável por um contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo para implantação de pontos de wi-fi gratuito em comunidades periféricas da capital.

A entidade é comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama, também sócia da produtora Go UP, empresa envolvida na produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O contrato investigado previa inicialmente o valor de R$ 108 milhões por ano para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito na cidade. Segundo a investigação, o montante chegou a R$ 157,1 milhões após aditivos firmados durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes.

De acordo com a Polícia Civil, há suspeita de que parte dos recursos públicos tenha sido repassada sem a devida entrega do serviço contratado. O inquérito apura se ao menos R$ 26 milhões foram usados pela ONG sem a correspondente prestação do serviço à população.


Operação cumpre mandados em endereços ligados à empresária e na Prefeitura

A operação foi conduzida pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro, vinculada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania.

Ao todo, foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Karina Gama e também na sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação, pasta responsável pelo contrato com o Instituto Conhecer Brasil.

O objetivo das buscas é recolher computadores, celulares, documentos e outros materiais que possam auxiliar na apuração das suspeitas de fraude, desvio de recursos públicos e irregularidades na execução contratual.

Segundo a investigação, o contrato previa a instalação dos 5 mil pontos de wi-fi até junho de 2025, mas apenas 3.200 pontos teriam sido instalados até o momento. A entrega total do serviço foi prorrogada por meio de pelo menos três aditivos contratuais.


Polícia aponta possível direcionamento e falta de capacidade técnica

Um dos pontos centrais da investigação é a suspeita de que o chamamento público possa ter sido direcionado. Segundo a Polícia Civil, apenas o Instituto Conhecer Brasil participou do processo de seleção.

Para os investigadores, a entidade não possuía histórico consolidado na área de telecomunicações. A atuação anterior do instituto estaria ligada principalmente a feiras de livros, eventos literários e atividades religiosas, sem experiência técnica comprovada em projetos de conectividade pública.

O inquérito afirma que as investigações indicaram um possível cenário de grave comprometimento da lisura administrativa e financeira desde a origem da contratação.

Esse ponto é considerado relevante porque o contrato envolvia a implantação, operação e manutenção de uma ampla rede de internet pública em comunidades da capital paulista, um serviço que exige capacidade técnica, infraestrutura, equipe especializada e controle permanente de funcionamento.


Valores cobrados pela ONG são questionados pela investigação

Outro aspecto investigado é o valor pago por ponto de internet instalado. Segundo a Polícia Civil, o acordo firmado com o Instituto Conhecer Brasil estabeleceu o pagamento fixo mensal de R$ 1.800 por ponto de internet.

A investigação compara esse valor com contratos anteriores da Prodam, empresa pública municipal de tecnologia. De acordo com os investigadores, a Prodam prestava serviços semelhantes com custo de R$ 230 para implantação por ponto e R$ 306 mensais para manutenção por ponto.

Para a Polícia Civil, a diferença entre os valores pode indicar custo acima dos parâmetros de mercado e das referências da própria administração municipal.

A Prefeitura, por sua vez, afirma que o custo estimado para 2026 na parceria com o instituto seria de R$ 1.280,80 por ponto ao mês, valor que, segundo a gestão municipal, seria inferior a propostas recebidas anteriormente.


Investigação apura repasses antes da entrega integral do serviço

A Polícia Civil também apura a realização de repasses mensais à ONG antes da instalação completa dos pontos previstos no contrato.

De acordo com o inquérito, o cronograma original previa a entrega de 5 mil pontos de conectividade até junho de 2025, mas a entidade teria instalado apenas 3.200 pontos. Para os investigadores, os aditivos assinados em curto intervalo de tempo teriam sido usados para justificar os atrasos na execução do serviço.

A investigação cita ainda a antecipação de pagamentos no valor de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação. Entre os pontos mencionados estão repasses superiores a R$ 11 milhões nos meses de julho e agosto de 2024, referentes a 3.200 pontos, quando, segundo a apuração, apenas seis estariam funcionando no período.

Esses elementos sustentam a suspeita de possível desvio de recursos públicos, embora ainda não haja conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal ou administrativa.


Notas fiscais canceladas e documentos questionados entram na mira

Além da operação policial, o Instituto Conhecer Brasil também é investigado pelo Ministério Público de São Paulo.

Uma das frentes de apuração envolve a prestação de contas da ONG. Segundo levantamento publicado pelo g1, a entidade teria utilizado ao menos R$ 4 milhões em notas fiscais canceladas ou emitidas para si própria para justificar despesas vinculadas ao contrato.

Entre os casos citados está uma nota fiscal de R$ 2 milhões emitida pela empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., contratada pela ONG para prestação de serviços. O documento teria sido cancelado no sistema da própria Prefeitura de São Paulo no mesmo dia em que foi emitido, mas ainda assim teria sido incluído na prestação de contas apresentada à gestão municipal.

A empresa Complexsys afirmou, em nota, que acompanha a investigação com serenidade, que é mera prestadora de serviços do Instituto Conhecer Brasil e que não há, até o momento, conclusões definitivas que justifiquem juízo de responsabilidade contra a empresa. A companhia também declarou estar à disposição das autoridades.


Instituto teria emitido notas para ele mesmo

Outro ponto levantado na prestação de contas envolve notas fiscais emitidas pelo próprio Instituto Conhecer Brasil para ele mesmo, como se a entidade tivesse prestado serviço a si própria.

Segundo o levantamento, ao menos três notas nessa situação somam mais de R$ 1,4 milhão. Um parecer da Secretaria Municipal de Tecnologia, datado de fevereiro de 2026, apontou que o instituto não poderia emitir notas fiscais para si mesmo.

O mesmo parecer indicou ainda a existência de pelo menos R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade declarados pela ONG na comprovação de despesas.

Apesar das inconformidades, a secretaria decidiu aprovar a prestação de contas com ressalvas, condicionando a regularização à devolução integral dos valores glosados, no total de R$ 930.256,87.

A Prefeitura informou posteriormente que a entidade devolveu integralmente o valor e que, por isso, o contrato foi renovado para a instalação dos pontos restantes.


Faturas milionárias também chamam atenção

A prestação de contas do Instituto Conhecer Brasil também incluiu quatro faturas da empresa Make One Tecnologia Digital Ltda., no valor total de R$ 8,5 milhões, referentes à locação de equipamentos eletrônicos.

As faturas chamaram atenção por apresentarem numeração sequencial, emissão em datas próximas e, em alguns casos, o mesmo vencimento, mas valores diferentes.

Especialistas ouvidos pela reportagem original explicaram que a locação de bens móveis não exige necessariamente emissão de nota fiscal de serviço, já que o ISS não incide sobre locação pura. No entanto, em contratos financiados com recursos públicos, documentos como faturas, recibos, contratos e comprovantes de pagamento precisam demonstrar de forma clara que a despesa existiu, que era compatível com o objeto contratado e que foi regularmente paga.

Assim, embora a apresentação de faturas sequenciais não comprove irregularidade por si só, ela pode justificar uma verificação mais rigorosa sobre o lastro das despesas e a efetiva entrega dos bens ou serviços.


Relações políticas de Karina Gama também são citadas

Karina Gama também aparece em registros relacionados a aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em 2022, ela prestou serviços de consultoria para a campanha de Mário Frias, então candidato a deputado federal pelo PL. O serviço teria sido feito por meio da empresa GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural Ltda., que recebeu R$ 54 mil da campanha.

A empresa funcionava no mesmo endereço e na mesma sala da ONG e da produtora de cinema vinculadas à empresária, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Além disso, Mário Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil. A transação é investigada no Supremo Tribunal Federal sob suspeita de falta de transparência e dificuldade de rastreamento dos recursos.

A equipe de Mário Frias foi procurada pela reportagem original, mas não havia se manifestado até a última atualização.


Contrato com empresa ligada a investigado por feminicídio também é questionado

Outro ponto citado na investigação jornalística envolve um contrato de R$ 12 milhões entre o Instituto Conhecer Brasil e a empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda.

A empresa era de propriedade de Alex Leandro Bispo dos Santos, preso desde fevereiro acusado de feminicídio da companheira.

Segundo os documentos analisados, no primeiro contrato assinado com a ONG, o representante da empresa aparece apenas como “Alex”, sem sobrenome, CPF ou documento de identidade.

A Favela Conectada teria sido responsável por instalar mais de 900 pontos de internet em favelas da cidade, recebendo mais de R$ 2 milhões de acordo com notas apresentadas à Prefeitura até dezembro de 2025.

Karina Gama afirmou que não reconhece o contrato com o “Alex” não identificado e levantou a hipótese de fraude. No entanto, o documento teria sido acessado a partir do próprio drive usado pela empresária para encaminhar comprovantes de despesas à Prefeitura.


O que diz Karina Gama

Karina Gama declarou ao g1 que desconhece as notas fiscais canceladas mencionadas na reportagem e afirmou não ter controle sobre eventual cancelamento de notas por fornecedores contratados.

Sobre as notas emitidas pelo próprio instituto, ela disse que os problemas foram apontados por ela mesma à Prefeitura e que estavam sendo resolvidos na prestação de contas do bimestre.

A empresária também explicou que a ONG e suas empresas funcionam no mesmo endereço para que ela possa manter controle administrativo sobre os negócios.

Até a última atualização da reportagem original sobre a operação policial, a ONG não havia retornado o contato para comentar especificamente a ação da Polícia Civil.


O que diz a Prefeitura de São Paulo

O prefeito Ricardo Nunes afirmou, por mensagem, que a Prefeitura está à disposição para colaborar com as investigações. Ele declarou que a gestão municipal não constatou irregularidades no processo, mas que tomará providências rigorosas caso alguma irregularidade seja identificada.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo disse que colabora com as autoridades e que todo o material requisitado já havia sido encaminhado aos órgãos responsáveis.

A administração municipal afirmou ainda que o programa funciona normalmente na cidade e que, por volta das 9h desta segunda-feira, dos 3,2 mil pontos contratados, apenas 52 estavam offline e passavam por manutenção.

A gestão também declarou que não houve pagamento por 5 mil pontos e que o aditivo questionado seria exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados.

A Prefeitura negou desvio de recursos públicos e afirmou que o contrato seguiu os princípios da legalidade, transparência e economicidade. Segundo a administração, o chamamento público ficou aberto por 30 dias e ocorreu em 2024, antes da produção do filme mencionado.


O que diz o Ministério Público

O Ministério Público de São Paulo investiga o caso em duas frentes: uma na área de patrimônio público e social e outra na esfera criminal.

A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social da Capital informou que há um inquérito civil em andamento para apurar eventuais irregularidades no Termo de Colaboração firmado entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e o Instituto Conhecer Brasil.

Entre os pontos investigados estão o suposto direcionamento do chamamento público, a ausência de justificativa técnica ou econômica para a parceria, a celebração de aditivos em sequência e os repasses financeiros referentes a serviços que ainda não teriam sido implantados.


Caso reúne suspeitas sobre contrato público, prestação de contas e execução do serviço

A investigação sobre o Instituto Conhecer Brasil envolve diferentes frentes: a contratação da ONG, os valores pagos por ponto de internet, a quantidade de pontos efetivamente instalados, os aditivos contratuais, as notas fiscais apresentadas na prestação de contas e as relações políticas da empresária responsável pela entidade.

Até o momento, as suspeitas seguem em apuração pela Polícia Civil e pelo Ministério Público. A Prefeitura de São Paulo nega irregularidades e afirma colaborar com as autoridades.

O caso ganhou repercussão também pela ligação de Karina Gama com a produtora responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro, embora a gestão municipal afirme que o contrato de wi-fi não tem relação com a produção cinematográfica.

A apuração agora deve se concentrar na análise dos documentos, equipamentos e registros apreendidos durante a operação, além da verificação da efetiva entrega dos serviços contratados e da regularidade dos pagamentos feitos com dinheiro público.

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