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EUA miram práticas comerciais do Brasil e propõem tarifa de 25% sobre produtos nacionais

Medida foi apresentada pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos após investigação aberta em 2025; governo americano cita PIX, desmatamento ilegal, regulação digital, propriedade intelectual e combate à corrupção entre os pontos questionados


Investigação dos EUA aponta práticas brasileiras consideradas “irrazoáveis”

Os Estados Unidos concluíram uma investigação comercial contra o Brasil e afirmaram que determinadas práticas adotadas pelo governo brasileiro seriam “irrazoáveis” e poderiam onerar ou restringir o comércio com empresas norte-americanas. Como consequência, o Escritório de Comércio dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, propôs a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

A medida ainda não representa a aplicação imediata da taxação. O governo americano estabeleceu um calendário de consultas, audiências e manifestações públicas antes de definir se as chamadas medidas corretivas serão colocadas em prática. O prazo legal para a eventual aplicação das sanções vai até 15 de julho de 2026.

A investigação envolve temas sensíveis das relações comerciais e políticas entre Brasil e Estados Unidos. Entre os pontos citados pelo órgão americano estão o PIX, o desmatamento ilegal, a regulação de redes sociais, a proteção à propriedade intelectual, o acesso ao mercado de etanol, acordos comerciais brasileiros com outros países e a aplicação de leis anticorrupção.


Tarifa de 25% ainda passará por consultas públicas

Apesar da proposta de taxação, a tarifa de 25% ainda depende de etapas formais antes de uma eventual aplicação. O USTR abriu um processo para receber manifestações de empresas, entidades, representantes de setores produtivos e outros interessados.

O cronograma divulgado prevê prazo para pedidos de participação em audiência pública, envio de comentários por escrito e debate sobre as medidas propostas. A audiência está prevista para ocorrer em 6 de julho de 2026, enquanto a decisão final deve ser tomada até 15 de julho de 2026.

Na prática, esse período será decisivo para as negociações entre os dois países. O governo brasileiro ainda pode tentar reduzir o alcance da medida, ampliar a lista de exceções ou evitar a aplicação da tarifa. Do lado americano, o processo será usado para justificar quais setores devem ser atingidos e quais produtos devem ficar fora da cobrança adicional.


PIX entra no centro da disputa comercial

Um dos pontos de maior repercussão na investigação é a menção ao PIX, sistema de pagamentos instantâneos criado e operado pelo Banco Central do Brasil. Segundo a avaliação do governo dos Estados Unidos, o Banco Central atuaria simultaneamente como regulador e operador do sistema, o que, na visão americana, poderia favorecer o PIX em relação a provedores privados, incluindo empresas dos EUA.

O governo americano argumenta que o modelo brasileiro teria impacto sobre companhias que atuam no setor de pagamentos, como empresas de cartão, fintechs e plataformas digitais. A crítica ocorre em um momento em que o PIX se consolidou como uma das principais formas de pagamento no Brasil, com ampla adesão de pessoas físicas, empresas e estabelecimentos comerciais.

Especialistas ouvidos pela imprensa brasileira avaliam que a ofensiva americana pode estar ligada à concorrência com grandes bandeiras de cartão e empresas de tecnologia dos Estados Unidos. O PIX, por ser gratuito para pessoas físicas e ter baixo custo para empresas, alterou a dinâmica do mercado de pagamentos no Brasil e passou a ser visto como uma referência internacional de infraestrutura pública digital.


Especialistas apontam disputa com big techs e empresas de pagamento

A crítica ao PIX também aparece em um contexto mais amplo de tensão envolvendo big techs, serviços digitais e regulação no Brasil. Empresas americanas como Google, Meta, Visa, Mastercard e outras companhias de tecnologia e pagamentos atuam em setores diretamente afetados pelo avanço de sistemas públicos de pagamento instantâneo.

Para especialistas, a discussão não se limita apenas ao funcionamento técnico do PIX. O sistema brasileiro virou uma vitrine internacional por sua eficiência, velocidade e ampla adoção. Isso pode gerar desconforto em mercados onde soluções privadas ainda exercem domínio maior sobre pagamentos digitais.

Além disso, há preocupação nos Estados Unidos com o possível avanço do PIX Internacional e com discussões dentro do Brics sobre alternativas ao uso do dólar em transações comerciais. Embora essas iniciativas ainda estejam em diferentes estágios de debate e implementação, elas fazem parte de um cenário geopolítico no qual meios de pagamento, moedas e infraestrutura financeira se tornaram instrumentos de influência global.


Regulação de redes sociais também foi citada pelo USTR

Outro ponto mencionado na investigação envolve a regulação de redes sociais e decisões judiciais brasileiras que atingiram plataformas digitais americanas. O USTR afirma que tribunais brasileiros teriam determinado a remoção de conteúdos políticos, suspensão de perfis e aplicação de multas elevadas contra empresas de mídia social.

O órgão americano também critica decisões sigilosas e medidas com alcance sobre conteúdos e usuários fora do Brasil. Essa parte da investigação dialoga com um debate já existente entre autoridades brasileiras, plataformas digitais e representantes do governo americano sobre liberdade de expressão, responsabilização de redes sociais, combate à desinformação e cumprimento de ordens judiciais.

No Brasil, o tema ganhou força nos últimos anos com discussões no Supremo Tribunal Federal, no Congresso Nacional e em órgãos reguladores sobre a responsabilidade das plataformas por conteúdos publicados por usuários. Já empresas de tecnologia têm manifestado preocupação com possíveis impactos sobre liberdade de expressão, ambiente de negócios e operação de seus serviços no país.


Desmatamento ilegal e questões ambientais aparecem no relatório

O relatório americano também inclui críticas à aplicação de leis ambientais no Brasil. Segundo o USTR, embora o país tenha um marco legal para combater o desmatamento ilegal, haveria falhas históricas na execução dessas normas.

A inclusão do tema ambiental amplia o alcance da investigação para além de barreiras comerciais tradicionais. O desmatamento ilegal é tratado pelos Estados Unidos como uma prática capaz de afetar a concorrência e o comércio internacional, especialmente quando produtos associados a cadeias produtivas brasileiras entram no mercado global.

Esse ponto pode gerar impacto político relevante, já que questões ambientais costumam ser usadas em negociações comerciais, acordos internacionais e debates sobre acesso a mercados. Para o Brasil, o desafio será demonstrar avanços na fiscalização, no combate a crimes ambientais e na rastreabilidade de produtos.


Etanol, patentes e propriedade intelectual também são questionados

A investigação também menciona o acesso ao mercado brasileiro de etanol. Segundo o governo americano, o Brasil teria interrompido, a partir de 2017, um tratamento tarifário considerado equilibrado para o combustível, deixando de oferecer reciprocidade às exportações vindas dos Estados Unidos.

Outro ponto sensível é a propriedade intelectual. O USTR aponta falhas na aplicação de leis contra falsificação, pirataria e problemas relacionados à análise de patentes. O relatório cita especialmente a demora em processos no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, com destaque para setores como o biofarmacêutico.

Essas críticas fazem parte de uma pauta recorrente nas relações comerciais dos Estados Unidos com outros países. Para o governo americano, a proteção de marcas, patentes, produtos tecnológicos, medicamentos e obras intelectuais é uma prioridade estratégica para empresas dos EUA.


Combate à corrupção é incluído entre as justificativas

O documento americano também cita preocupações com o combate à corrupção no Brasil. Entre os elementos mencionados estão decisões judiciais relacionadas à Operação Lava Jato, renegociações de acordos de leniência e a posição do país em indicadores internacionais de percepção da corrupção.

A inclusão desse tema adiciona peso político à investigação. Embora a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 seja um instrumento comercial, o relatório mistura argumentos econômicos, regulatórios, institucionais e políticos para sustentar a proposta de medidas corretivas.

O governo brasileiro, até a publicação das informações iniciais, ainda não havia apresentado uma manifestação oficial detalhada sobre a conclusão da investigação. A expectativa é que o Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores avaliem os próximos passos em conjunto com áreas econômicas e diplomáticas.


Lista de exceções reduz alcance da tarifa proposta

Embora a tarifa proposta seja de 25% sobre produtos brasileiros, o próprio documento americano prevê uma ampla lista de exceções. Produtos considerados estratégicos para os Estados Unidos devem ficar fora da taxação.

Entre os itens que podem ser isentos estão determinadas carnes, frutas, café, chá, especiarias, cereais, sementes, frutos oleaginosos, plantas industriais e medicinais, palha e forragem. A lista também inclui aeronaves e peças produzidas no Brasil, terras raras, produtos químicos orgânicos, medicamentos e fertilizantes.

Essa lista de exceções mostra que os Estados Unidos buscam preservar cadeias de abastecimento consideradas relevantes para sua economia. Ao mesmo tempo, mantém pressão sobre o Brasil ao propor uma tarifa ampla sobre outros setores.

Para exportadores brasileiros, o impacto final dependerá diretamente da lista definitiva de produtos atingidos, do calendário de aplicação e da capacidade de negociação entre os governos.


Medida ocorre em meio a tensão política entre Lula e Trump

A proposta de tarifa surge em um momento de tensão política entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. A investigação foi aberta em julho de 2025 por determinação do presidente americano, depois de críticas feitas por Trump a práticas brasileiras e da ameaça anterior de ampliar tarifas sobre produtos nacionais.

Segundo o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, houve reuniões e diálogo com autoridades brasileiras, mas as divergências permaneceram. O governo americano afirma que as conversas se intensificaram nas últimas semanas, sem que houvesse acordo suficiente para encerrar a investigação.

A decisão também frustra planos do governo brasileiro de tentar uma nova conversa entre Lula e Trump para reduzir riscos de retaliações financeiras e impactos econômicos. As negociações ainda podem continuar, mas agora ocorrem sob pressão maior, com prazo definido para uma possível aplicação de medidas corretivas.


Flávio Bolsonaro diz ter pedido a Trump para não taxar empresas brasileiras

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro afirmou que pediu ao presidente Donald Trump que não aplicasse tarifas contra empresas brasileiras. Segundo ele, o pedido foi feito em reuniões realizadas nos Estados Unidos com Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.

Flávio declarou que a taxação ainda é uma sugestão e que o presidente Lula teria tempo para negociar e defender as empresas brasileiras. O senador também afirmou que, em sua avaliação, a medida seria uma retaliação política ao governo Lula, e não diretamente ao setor produtivo nacional.

As declarações ocorrem em um contexto eleitoral e diplomático delicado. A proposta de tarifa pode se tornar tema central do debate político brasileiro, especialmente por envolver comércio exterior, relações com os Estados Unidos, PIX, soberania digital e impactos sobre empresas exportadoras.


Seção 301 permite retaliações comerciais após investigação

A investigação foi conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite ao governo dos Estados Unidos investigar práticas estrangeiras consideradas prejudiciais ao comércio americano.

Quando o USTR conclui que há práticas desleais, o governo pode propor medidas de retaliação, incluindo tarifas de importação. Esse instrumento já foi usado em disputas importantes, especialmente contra a China, durante o primeiro mandato de Donald Trump.

A diferença em relação a outras tarifas anunciadas anteriormente está no fundamento legal. Após questionamentos judiciais sobre o uso de poderes emergenciais para impor tarifas, a Seção 301 aparece como uma alternativa mais estruturada, pois exige investigação formal, consultas públicas e justificativa técnica.


Impacto para o Brasil dependerá dos setores atingidos

O impacto econômico da tarifa de 25% dependerá de quais produtos brasileiros serão efetivamente incluídos na medida final. Como há uma lista ampla de exceções, setores importantes podem ficar protegidos, mas outros segmentos exportadores podem enfrentar perda de competitividade no mercado americano.

Uma tarifa adicional torna o produto brasileiro mais caro para importadores dos Estados Unidos. Isso pode reduzir vendas, pressionar margens de lucro, afetar contratos e provocar redirecionamento de exportações para outros mercados.

Ao mesmo tempo, empresas americanas que dependem de insumos brasileiros também podem pressionar o USTR para ampliar exceções. Por isso, a fase de consultas públicas será importante não apenas para o governo brasileiro, mas também para companhias dos próprios Estados Unidos.


Próximas semanas serão decisivas para a relação comercial entre Brasil e EUA

A proposta de tarifa de 25% marca um novo momento nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O caso envolve interesses econômicos, disputas tecnológicas, política ambiental, regulação digital, meios de pagamento e tensões diplomáticas.

Até 15 de julho de 2026, os dois países terão uma janela de negociação para tentar evitar a aplicação da medida ou reduzir seus impactos. Para o Brasil, o desafio será responder às acusações americanas, defender seus sistemas regulatórios e proteger setores exportadores.

Para os Estados Unidos, a decisão será observada como parte de uma estratégia mais ampla de pressão comercial sobre países que adotam políticas consideradas desfavoráveis a empresas americanas.

O desfecho ainda está em aberto, mas a investigação já colocou temas como PIX, soberania digital, comércio internacional, desmatamento, propriedade intelectual e política externa no centro do debate econômico entre os dois países.

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