Levantamento do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra queda nos assassinatos em 2024, porém crescimento dos chamados “homicídios ocultos” preocupa especialistas
O Brasil registrou, em 2024, a menor taxa de homicídios dos últimos 11 anos, segundo dados divulgados nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública no Atlas da Violência 2026.
O país contabilizou oficialmente 42.590 homicídios no ano passado, o equivalente a 20,1 mortes por 100 mil habitantes. Em comparação com 2023, houve redução de 7,4% na taxa de homicídios e queda de 6,9% no número absoluto de assassinatos.
O resultado consolida uma tendência de redução da violência letal observada nos últimos anos no Brasil. Ainda assim, os pesquisadores alertam que o cenário exige cautela devido ao aumento significativo das mortes violentas classificadas sem causa determinada, que podem esconder homicídios não registrados oficialmente.
Queda nos homicídios mantém tendência de redução no Brasil
Segundo o levantamento, a redução da violência letal aparece tanto nos recortes anuais quanto nas análises de longo prazo.
Entre 2019 e 2024, a taxa nacional de homicídios caiu 8,6%, enquanto o número total de vítimas diminuiu 6,4%.
Já na comparação entre 2014 e 2024, a queda acumulada foi ainda mais expressiva:
A taxa de homicídios recuou 33,4% em dez anos
O número absoluto de mortes caiu 29,6% no período
Pesquisadores apontam que diversos fatores ajudam a explicar o cenário de redução observado em diferentes estados brasileiros.
Entre os principais elementos destacados pelo Atlas estão:
Mudanças em políticas públicas de segurança baseadas em inteligência e análise territorial
Integração maior entre ações policiais e prevenção social
Mudanças nas dinâmicas do crime organizado em determinadas regiões
Envelhecimento da população brasileira, reduzindo o grupo etário mais vulnerável à violência
O coordenador do Atlas da Violência e pesquisador do Ipea, Daniel Cerqueira, afirmou que políticas públicas baseadas em evidências vêm sendo implementadas gradualmente em estados e municípios brasileiros.
Mortes violentas sem esclarecimento preocupam especialistas
Apesar da queda nos homicídios oficiais, o Atlas destaca um aumento expressivo das chamadas mortes violentas por causa indeterminada.
Esses casos ocorrem quando o sistema de saúde registra uma morte violenta, mas sem identificar oficialmente se houve homicídio, acidente ou outra causa.
Segundo os pesquisadores, parte desses registros pode esconder assassinatos não contabilizados nas estatísticas oficiais.
Para estimar esses casos, o Atlas utiliza metodologia baseada em aprendizado de máquina, cruzando informações sobre perfil das vítimas, local da ocorrência, instrumento utilizado e circunstâncias do óbito.
Com essa metodologia, o número estimado de homicídios no Brasil em 2024 sobe para 49.673 mortes.
Nesse cenário:
A taxa estimada seria de 23,4 homicídios por 100 mil habitantes
A queda em relação a 2023 cairia de 7,4% para apenas 0,4%
Homicídios ocultos quase dobraram em um ano
O relatório mostra forte crescimento dos chamados homicídios ocultos.
Em 2023, o país registrava estimativa de 3.755 homicídios ocultos. Em 2024, esse número saltou para 7.083 casos.
Isso representa:
Alta de 88,6% no número de homicídios ocultos
Crescimento de 83,3% na taxa por 100 mil habitantes
Com isso, os homicídios ocultos passaram a representar 14,3% do total estimado de homicídios no país em 2024.
Segundo os pesquisadores, o avanço desse indicador pode revelar dificuldades recentes na identificação correta da intencionalidade das mortes violentas.
Norte e Nordeste concentram os maiores índices de violência
O Atlas da Violência mostra que a redução dos homicídios ocorreu de forma ampla, mas desigual entre os estados brasileiros.
As maiores taxas de homicídio registradas oficialmente em 2024 foram:
Amapá: 45,7 por 100 mil habitantes
Bahia: 40,9
Pernambuco: 37,3
Alagoas: 35,9
Ceará: 34,3
Na outra ponta, os menores índices de violência letal foram registrados em:
São Paulo: 6,6 por 100 mil habitantes
Santa Catarina: 8,1
Distrito Federal: 10,3
Minas Gerais: 12,8
Rio Grande do Sul: 15,2
Estados tiveram comportamentos diferentes em 2024
Na comparação entre 2023 e 2024, a maioria dos estados brasileiros apresentou redução da violência letal.
As maiores quedas na taxa de homicídios ocorreram em:
Amapá: -30%
Tocantins: -26,7%
Sergipe: -24,8%
Roraima: -22,8%
Acre: -20,5%
Já os estados que registraram crescimento relevante foram:
Maranhão: +7,6%
Ceará: +5,2%
São Paulo permaneceu praticamente estável no indicador oficial.
Em números absolutos, os maiores recuos ocorreram no:
Rio de Janeiro: 772 homicídios a menos
Bahia: redução de 555 mortes
Rio Grande do Sul: 280 casos a menos
Goiás: queda de 229 homicídios
Amazonas: redução de 229 mortes
Quando considerados homicídios ocultos, cenário muda em alguns estados
Ao incluir os homicídios ocultos nas estatísticas estimadas, alguns estados registram mudanças importantes no cenário da violência.
Os maiores aumentos da taxa estimada entre 2023 e 2024 ocorreram em:
Minas Gerais: +25%
Ceará: +23,8%
São Paulo: +10,3%
Maranhão: +7,8%
Alagoas: +3,6%
O Atlas chama atenção especialmente para o peso dos homicídios ocultos em estados do Centro-Sul.
Na capital paulista, por exemplo, foram estimados 1.539 homicídios ocultos, equivalentes a 84,7% do total de homicídios estimados na cidade.
Em Belo Horizonte, os homicídios ocultos corresponderam a 65,2% do total estimado.
Violência segue concentrada em poucos municípios
O levantamento também mostra forte concentração territorial da violência letal.
Segundo o Atlas:
50% dos homicídios do Brasil ocorreram em apenas 99 municípios em 2024
Essas cidades representam apenas 1,8% dos municípios brasileiros.
Além disso:
Os 10 municípios mais violentos concentraram 19,4% de todos os homicídios do país
O estudo aponta que municípios de porte médio apresentaram as maiores taxas médias de homicídio, superando inclusive as grandes metrópoles.
Maranguape, Jequié e Maracanaú lideram ranking de violência
Entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, as maiores taxas estimadas de homicídio foram registradas em:
Maranguape (CE): 87,2 por 100 mil habitantes
Jequié (BA): 79,4
Maracanaú (CE): 74,1
Itapipoca (CE): 74
Caucaia (CE): 72,9
Dos 20 municípios mais violentos do país nesse grupo populacional:
17 estão no Nordeste
2 ficam no Norte
1 pertence ao Centro-Oeste
Na outra ponta, as cidades mais seguras foram:
Jaraguá do Sul (SC): 2 homicídios por 100 mil habitantes
Brusque (SC): 2,6
Santa Bárbara d’Oeste (SP): 3,2
Lavras (MG): 3,6
Bragança Paulista (SP): 3,8
Salvador lidera ranking entre capitais brasileiras
Entre as capitais, as maiores taxas de homicídio estimado em 2024 foram registradas em:
Salvador: 52,7 por 100 mil habitantes
Maceió: 45,9
Macapá: 45,6
Recife: 45,5
Fortaleza: 42,2
As menores taxas ocorreram em:
Florianópolis: 9,7
Distrito Federal: 10,9
Curitiba: 13,2
Goiânia: 14,7
São Paulo: 15,3
Segundo os pesquisadores, a diferença entre as capitais mais violentas e as menos violentas demonstra como o fenômeno da violência letal continua extremamente desigual no território brasileiro.
Atlas reforça necessidade de políticas públicas integradas
O relatório conclui que a redução dos homicídios no Brasil mostra avanços importantes na área de segurança pública, mas ressalta que o crescimento dos homicídios ocultos revela fragilidades na produção e integração dos dados oficiais.
Os pesquisadores defendem maior integração entre sistemas de saúde, segurança pública e justiça criminal, além da ampliação de políticas preventivas baseadas em evidências.
O estudo também destaca que o combate à violência letal exige ações permanentes nas áreas de educação, assistência social, urbanismo, juventude e inteligência policial para consolidar a tendência de queda observada nos últimos anos.








































































































